EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 30 de março de 2014

35 Doses de Rum



Comparação Comprometedora

É comum 35 Doses de Rum (França/Alemanha, 2008) ser apresentado como uma espécie de versão europeia de Pai e Filha (Japão, 1949), de Yasujiro Ozu, comparação essa que acaba gerando uma expectativa desproporcional para aquele primeiro, afinal, o trabalho da cineasta Claire Denis possui bem pequena para com o título nipônico. Com efeito, existe sim no drama franco-germânico um olhar lançado sobre a relação de convivência entre um genitor e sua descendente, porém, diferentemente do que fizera Ozu, este não é o ponto exclusivo nem principal da narrativa, tendo em vista que vários outros personagens são também estudados.
Neste passo, o elemento comum entre tais figuras é a solidão, o que não quer dizer, entretanto, que suas histórias sejam dissecadas a contento¹, graças a falta de foco do enredo. Explique-se: enquanto Ozu restringira no drama por ele filmado a abordagem privilegiando, desta feita, a relação de dever moral existente entre pai e filha² – de um lado ele não deseja ser um estorvo e faz tudo para que a mesma siga sua vida, ela, em contrapartida, teme deixar o pai sozinho caso aceite seus conselhos e saia de casa para contrair matrimônio e ter filhos – Denis não dá muita importância a esse conflito e molda seres até pouco dependentes uns dos outros. Essa frieza dos personagens, vale dizer, resulta da forma não carinhosa com a qual são tratados pela cineasta que, ao invés de mergulhar nas emoções e anseios daqueles, realiza apenas uma retrato entediado dos mesmos.
Eis, aliás, o que mais se percebe no longa-metragem: seres cujo tédio anda de mãos dadas com a solidão. A rotina, aqui, não possui encanto algum.
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1.Num exercício considerável de analogia, tal constatação remete a conclusão da crítica Mariane Morisawa quanto ao remake de Robocop, a saber: “são muitos bons atores (bons, por sinal), ideias, dramas, ação. No fim, tudo é pincelado, mas sem a força necessária para ficar na memória” (Revista Preview. Ano 5. ed. 53. São Paulo: Sampa, Fevereiro de 2014.  p.65).
2. Leia mais sobre Pai e Filha em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/06/pai-e-filha.html.

FICHA TÉCNICA

Título Original: 35 Rhums
Direção: Claire Denis
Roteiro: Jean-Pol Fargeau, Claire Denis
Elenco: Alex Descas, Mati Diop, Nicole Dogue, Grégoire Colin, Jean-Christophe Folly
Produção: Bruno Pésery                  Fotografia: Agnès Godard
Trilha Sonora: Tindersticks              Duração: 100 min.

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