EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 10 de março de 2014

Dançando no Escuro



Subversão Mor

Não é errado concluir que a grande satisfação de Lars Von Trier enquanto cineasta e roteirista consiste em subverter os mais populares gêneros e estilos cinematográficos sobretudo hollywoodianos; afinal, o dinamarquês se especializou em atribuir uma peculiar estranheza, uma assinatura própria a formatos consagrados como os filmes de guerra (Europa), de terror (Anticristo), apocalípticos (Melancolia) e eróticos (Ninfomaníaca), além de emular as produções comumente chamadas de teatro filmado (Dogville), bem como os faroestes (roteiro de Querida Wendy).
Dentro deste contexto, Dançando no Escuro (Dinamarca/Suécia/França/Alemanha/EUA/Noruega/Holanda/Finlândia/Argentina/Espanha/Itália/Reino Unido/Islândia, 2000) é o título de maior destaque dentre os exercícios de subversão praticados pelo diretor. Voltado a um gênero caro ao cinema clássico, qual seja o musical, o longa-metragem – laureado com a Palma de Ouro em Cannes – é o mais cruel, duro e devastador exemplar do segmento na medida em que apresenta uma sucessão de tragédias permeadas pelos mais mesquinhos e devassos atos que o ser humano é capaz de cometer.

Com efeito, Björk atropela qualquer expectativa negativa acerca de seus dotes dramáticos e entrega uma performance linda e sofrida conforme exigido por seu papel: uma mulher que, prestes a perder a visão, faz tudo o que está ao alcance para garantir o futuro e a saúde do filho. Apaixonada por música, dança, teatro e cinema a personagem se refugia num mundo imaginário onde as cores são vivazes, a compreensão reina e a vida é tão bela quanto qualquer um dos musicais de Hollywood. Sua realidade, contudo, equivale a uma paleta cinzenta, possuindo pouquíssima música e raros momentos de solidariedade alheia.
Em meio a esse universo fílmico pode soar estranho que um ícone como Catherine Deneuve resulte tão pouco aproveitada pela trama, sensação essa que, entretanto, é logo dissipada quando confrontada pelo senso de coerência da narrativa, isso porque a personagem da francesa representa a bondade, a amizade, valores cujos espaços são diminuídos sobremaneira pela perversão e pelo mal. Para Von Trier não há na atualidade lugar para o bem, saltando aos olhos, por conseguinte, sua criatividade para imaginar quantidade tão considerável de infortúnios e injustiças experimentados por uma só pessoa.
Aliás, a protagonista de Björk se revela ascendente inegável da também hipersofredora interpretada por Nicole Kidman em Dogville (2003), ao passo em que ambas são vítimas da sociedade, brutalizadas e vilipendiadas pelo homem em meio a cotidiana batalha pela sobrevivência. Neste passo, ainda que tais jornadas possam parecer exageradas no bojo de uma simples sinopse, na tela, em nenhum dos títulos, a baixeza da espécie humana soa absurda, uma vez que emanada de textos exemplares, filmados, por sua vez, com invejável rigor estético ou, em poucas palavras, porque mostradas pela ótica de Lars Von Trier.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Dancer in the Dark
Direção e Roteiro: Lars von Trier
Produção: Vibeke Windeløv
Elenco: David Morse, Björk, Catherine Deneuve, Cara Seymour, Andrew Lucre, Udo Kier, Peter Stormare, Vladan Kostig, Stellan Skarsgard, Jean-Marc Barr, Paprika Steen, Joel Grey, Jens Albinus
Fotografia: Robby Müller               Música: Björk
Estreia no Brasil: 12.10.00             Estreia Mundial: 17.05.00
Duração: 140 min.

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