Sniper Americano / Guerra ao Terror



Muito Punch e Pouco Hype

Não obstante todo o sucesso experimentado nas bilheterias norte-americanas¹, o hype em torno de Sniper Americano (EUA, 2014) seria mais justificável se há sete anos o impactante Guerra ao Terror (EUA, 2008) não houvesse sido lançado, isso porque as obras se parecem na medida em que possuem histórias bem similares, qual seja a saga do soldado yankee perito no ofício a ele confiado que serve ao país durante a invasão ao Iraque pós 11 de setembro e acaba por ficar dependente da rotina de adrenalina ali vivida, não conseguindo, por conseguinte, ser a mesma pessoa de antes quando de volta para casa. Como escreve Richard Pena:
“A compulsão dos soldados pelo perigo, pelo heroísmo, pelos desafios físicos e mentais e pela glória é o que os torna homens danificados e infelizes durante a paz; mas é essa mesma compulsão que os preenche com uma terrível sensação de plenitude durante o conflito. A guerra pode ser o inferno, mas continua a ser a coisa mais próxima do paraíso”².
Ademais, sem qualquer intenção de aqui tecer de forma profunda uma análise sobre a moralidade desses títulos – tarefa já exercida por tantos – outra semelhança aproxima as produções: a adoção do “sentimento de ‘guerra boa’ pelo qual as plateias nitidamente ansiavam depois de serem massacradas por filmes terríveis como [...] Leões e Cordeiros: histórias de guerras ‘injustas’ que afastavam o público das salas de exibição durante anos”³.
Dito isso, o que diferencia um filme do outro e acaba por tornar um superior ao outro é o tipo de narrativa e de gênero eleitos. Kathryn Bygelow, de um lado, finca os dois pés no suspense compondo um filme de guerra que se esquiva em falar dos motivos da mesma para assim não tornar insuportável a visão parcial e patriota do conflito; ao passo que o título dirigido por Clint Eastwood é um díptico que, preocupado em justificar a guerra, aponta a cultura armamentista da nação bem como a ferida aberta deixada pelos atentados ao World Trade Center para, neste passo, apresentar o dia-a-dia do sniper Chris Kyle no Iraque e em seguida seu retorno a terra natal e as dificuldades de adaptação nesse momento – tal como o que, no contexto da guerra do Vietnã, fora mostrado em O Franco Atirador e Amargo Regresso, ambos de 1978.

Neste diapasão, Bigelow não ignora o drama da vida pessoal de seu protagonista mas o faz de forma concisa dispensando apenas cerca de cinco minutos da duração de Guerra ao Terror para indicar o quanto aquele militar se sente deslocado em casa e/ou ao realizar tarefas domésticas rotineiras como compras num supermercado. A comunicação rápida e eficiente de Bigelow se deve, vale dizer, a tranquilidade com que admite ter um personagem principal eivado de distúrbios psicológicos, algo que Clint Eastwood hesita em fazer talvez por excesso de respeito ao ser real retratado, talvez por não querer desapontar o público americano que vê Chris Kyle como um irreparável herói nacional.
Ambos os filmes, de qualquer forma, se desincumbem da tarefa de revelar o que significa a normalidade para participantes de uma guerra: viver sempre no limiar entre vida e morte, seja desarmando bombas com alto poder de destruição, seja eliminando alvos mediante tiros de longa distância. Guerra ao Terror cumpre tal missão numa escala de tensão que impressiona e sufoca enquanto Sniper Americano o faz numa toada cadenciada que se deixa inebriar a todo instante pela patriotada, daí resvalar em clichês do gênero que pouco acrescentam como a figura da esposa sofrida que é deixada sozinha enquanto o marido guerreia mundo afora – aspecto que Kathryn Bigelow, mais uma vez, aborda apenas de relance não permitindo, portanto, que o drama dos que ficam em seus lares rivalize com a angústia dos que pisam em campos de batalhas.
Trocando em miúdos, Guerra ao Terror se desenvolve tal qual um rolo compressor numa carga avassaladora de punch que Sniper Americano jamais almeja ter, razão pela qual Suzana Uchoa Itiberê sugere que: “talvez a condução de Eastwood seja tão minimalista que o resultado careça de impacto.
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1. Lançado em data relativamente próxima ao julgamento do assassino de Chirs Kyle, Sniper Americano, até 20.02.15, arrecadara “mais de US$ 300 milhões nas bilheterias americanas desde sua estreia, na segunda quinzena de janeiro. O longa dirigido por Clint Eastwood já é considerado o filme de guerra com a maior bilheteria de todos os tempos” (FONTE: http://www.cineclick.com.br/noticias/sniper-americano-filme-e-sucesso-e-ultrapassa-us-300-milhoes-na-bilheteria-americana. Acesso em 01.03.15).
2.  1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. p.920.
3.  Op. Cit.
4.  Uma ressalva cabe ser feita, dentro deste contexto, quanto a sequência inicial, na qual o horror da guerra é demonstrado mediante o instante em que Chris Kyle tem de decidir se deve ou não abater uma criança iraquiana.
5.  Revista Preview. Ano 6. ed. 64. São Paulo: Sampa, Janeiro de 2015.  p.57.

FICHA TÉCNICA – SNIPER AMERICANO


Título Original: American Sniper

Direção: Clint Eastwood

Roteiro: Jason Dean Hall

Elenco: Bradley Cooper, Amie Farrell, Anthony Jennings, Assaf Cohen, Ben Reed, Billy Miller, Brando Eaton, Brett Edwards, Brian Hallisay, Chance Kelly, Cory Hardrict, Darius Cottrell, Emerson Brooks, Eric Close, Eric Ladin, Erik Aude, Evan Gamble, Greg Duke, Jake McDorman, James Ryen, Jet Jurgensmeyer, Joel Lambert, Jonathan Kowalsky, Keir O'Donnell, Kyle Gallner, Leonard Roberts, Luke Grimes, Marnette Patterson, Max Charles, Mido Hamada, Navid Negahban, Owain Yeoman, Reynaldo Gallegos, Robert Clotworthy, Sam Jaeger, Sammy Sheik

Fotografia: Tom Stern

Estreia: 25/12/2014

Duração: 133 min.

FICHA TÉCNICA – GUERRA AO TERROR


Título Original: The Hurt Locker

Direção: Kathryn Bigelow

Roteiro: Mark Boal

Elenco: Jeremy Renner, Guy Pearce, Ralph Fiennes, Anas Wellman, Anthony Mackie, Barrie Rice, Ben Thomas, Brian Geraghty, Christian Camargo, Christopher Sayegh, David Morse, Erin Gann, Evangeline Lilly, Feisal Sadoun, Fleming Campbell, Hasan Darwish, Imad Dadudi, J.J. Kandel, Justin Campbell, Kristoffer Ryan Winters, Malcolm Barrett, Michael Desante, Nabil Koni, Nader Tarawneh, Nibras Qassem, Omar Mario, Ryan Tramont, Sam Redford, Sam Spruell, Suhail Aldabbach, Wasfi Amour

Fotografia: Barry Ackroyd

Estreia: 04/09/2008

Duração: 131 min.

Comentários

  1. Se nos concentrarmos na principal Sniper caráter, é excelente. Mas eu gostaria de destacar o desempenho do ator Erci Ladin, que comumente vemos nos filmes de terror, fazendo outros personagens. Ela certamente teve um grande papel a ser admirado.

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