EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 11 de maio de 2015

Entre Abelhas



Novos Passos

Uma vez que a comédia é historica e equivocadamente vista como uma arte menor, é natural que em determinados momentos de suas carreiras alguns humoristas sintam a necessidade de provar também seu valor dramático. No âmbito do cinema estrangeiro, atores como Robin Williams, Steve Carell servem de exemplo a tal constatação, enquanto que no atual cenário nacional é Fábio Porchat quem deixa a piada de lado para enveredar pelo drama em Entre Abelhas (Brasil, 2014).

Tal medida, vale dizer, é realizada de forma inteligente pelo brasileiro ao passo em que, talvez por se tratar da primeira experiência nesse sentido, a comédia não é abandonada por completo, evitando-se, desta feita, um total estranhamento e rejeição do público. Dentro deste contexto, um truque é utilizado pelo roteiro, qual seja o deslocamento do humor para a seara dos personagens coadjuvantes – com destaque para a saborosa participação de Irene Ravache – e centralização da atmosfera depressiva e melancólica no protagonista vivido por Porchat. Desse modo, o que se vê é uma dramédia com correto equilíbrio entre os gêneros que em muito lembra as produções independentes norte-americanas de cineastas como Alexander Payne e Noah Baumbach.
A tais acertos do longa-metragem somam-se outros, como por exemplo:
- a preponderante utilização de locações situadas no centro comercial carioca, em detrimento da costumeira mostra do Rio de Janeiro com sol e praia, caracterização essa que em nada se conectaria ao estado de espírito cinzento do protagonista,
- o final em aberto que num primeiro momento pode até parecer uma saída fácil e vazia para a conclusão da trama, mas que, calmamente analisado, denota um inegável significado de recomeço para o personagem Bruno.
Neste importante passo dado, a turma do Porta dos Fundos¹ mostra que seu talento não se resume ao riso, conclusão que no caso de Porchat se torna ainda mais latente em razão da relevância de sua escrita – embora não comprometedor na presente obra, o domínio da interpretação dramática, pode vir a ser aprimorado em outros futuros exercícios.
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1.   “O primeiro longa metragem de Ian SBF, responsável por diversos episódios do Porta dos Fundos, conta com figurinhas carimbadas do canal como Luis Lobianco e Leticia Lima” (FONTE: http://www.cineclick.com.br/criticas/entre-abelhas. Acesso em 11.05.15).

Ficha Técnica

Direção: Ian SBF
Roteiro: Fábio Porchat, Ian SBF
Elenco: Camillo Borges, Fábio Porchat, Flavia Reis, Giovanna Lancellotti, Irene Ravache, Kim Archetti, Leticia Lima, Luis Lobianco, Marcelo Valle, Marcos Veras, Micheli Machado, Sílvio Matos, Simone Mazzer
Produção: Eliane Ferreira, Hugo Janeba, João Daniel Tikhomiroff, Michel Tikhomiroff
Fotografia: Alexandre Ramos
Montagem: Bernardo Pimenta, Ian SBF
Estreia: 30/04/2015
Duração: 100 min.

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