EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 4 de maio de 2015

O Homem Duplicado/O Duplo/O Menino no Espelho


Papel Carbono


Entre os anos de 2013 e 2014 o cinema abordou de maneira recorrente a temática do duplo, da suposta cópia fiel que cada um tem de si em algum canto do planeta, tal como prevê o mito germânico do Doppelgänger. Neste diapasão, as obras de três ilustres escritores foram adaptadas para a telona revelando entre si indiscutíveis semelhanças mas também notórias diferenças. O Homem Duplicado (Canadá/Espanha, 2013), O Duplo (Reino Unido, 2013) e O Menino no Espelho (Brasil, 2014) são, respectivamente, as versões cinematográficas de textos de José Saramago, Fiódor Dostoiévski e Fernando Sabino. Em comum a trinca de filmes apresenta a relação conflituosa do homem com seu duplo e a forma como este último se embrenha na vida do primeiro a ponto de tomar para si o interesse amoroso daquele, pondo a prova, desta feita, a virilidade, honra e nobreza do protagonista. Ademais, os três títulos não se eximem de sugerir o duplo como uma figura irreal presente no subconsciente de seu criador, sendo, portanto, uma espécie de alter ego apurado porque mais desinibido, sexy e articulado que a pessoa real, daí também servir como substituto para missões enfadonhas do cotidiano ou tarefas espinhosas como o contato com outros seres humanos.
No que tange as obras em comento, O Homem Duplicado é a única que não propõe uma fase inicial de coexistência amigável entre original e cópia. Na verdade, o filme de Denis Villeneuve não afirma com exatidão que um dos elementos é copiado; em contrapartida, quase sempre ambas as figuras semelhantes parecem ser originais, o que faz a fronteira entre falso e verdadeiro restar nublada em benefício da construção de um intricado enigma. Numa toada que bebe da fonte de David Cronenberg e David Lynch, Villeneuve compõe um trabalho milimetricamente pensado para confundir sem, entretanto, jamais deixar de fazer sentido nem de prender a atenção.

Neste passo, desde o início a relação entre Adam Bell, um sisudo professor, e Anthony Claire, um mulherengo ator coadjuvante, é marcada pela curiosidade mas, sobretudo, rejeição recíproca. Em meio a uma Toronto deserta e amarelada o cineasta apresenta seres solitários envoltos no sofrimento acarretado pelos atos de Bell e Claire. Inteligente, o longa-metragem planta pistas que se somam a não linearidade da história, resultando num trabalho que foge da mesmice, deixando quem o assiste, no mínimo, ansioso por decifrar o mistério apresentado. Em resumo, trata-se de um tipo de filme feito com rara qualidade e que merece toda a atenção e louvor a ele destinado.
O Duplo se vale do arquétipo do homem subterrâneo engendrado por Dostoiévski ao longo de suas obras. Com efeito, o que se vê é um personagem principal que parece invisível porque irrelevante perante os demais daí rotineiramente ser achatado pela máquina estatal e sua burocracia, aspecto esse que agrega ar kafkiano a produção. Aliás, o diretor Richard Ayoade busca tanto se apoderar do tom sombrio característico de Franz Kafka que acaba fazendo O Duplo
resvalar na superficialidade, na medida em que faz soar forçado todo o emprenho das direções de arte, fotografia e musical nesse sentido. Some-se a essa irritante vontade de parecer estranho o desempenho de Jesse Eisemberg, caricato em ambas as personas vivificadas, e o que se tem é, lamentavelmente, uma produção preocupada em demasia com sua aparência e de menos com o potencial de seu conteúdo.
                 Por fim, O Menino no Espelho (Brasil, 2014) destoa das duas realizações supracitadas na medida em que se trata de um filme voltado ao público infantil. Talvez por isso - o que ainda assim não justifica - o título seja tão desinteressado em expor um roteiro minimamente coerente. Assim, personagens são inseridos e retirados da trama de forma abrupta, restando consequentemente carentes de qualquer densidade psicológica, defeitos esses que, agravados pela péssima direção de elenco, trazem de volta a memória do público um tempo em que o cinema brasileiro soava amador e sem qualquer intuito de se desvencilhar da linguagem televisiva.


Ante o exposto, uma conclusão, ainda que óbvia, merece registro: a repetição de temas, não é necessariamente um problema - até porque fomenta curiosas comparações; o equívoco dentro deste contexto, aflora quando um tema já visto e debatido é novamente abordado sem qualquer iniciativa inovadora em seu bojo. Repetir fórmulas e contentar-se com mais do mesmo sem ao menos tentar encarar a tarefa de tornar novo o que já nasce um tanto velho é o elemento comprometedor que torna irrelevante toda uma realização.

Ficha Técnica – O Homem Duplicado
 

Título Original: Enemy
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Javier Gullón
Elenco: Jake Gyllenhaal, Alexis Uiga, Darryl Dinn, Isabella Rossellini, Joshua Peace, Kedar Brown, Megan Mann, Mélanie Laurent, Misha Highstead, Sarah Gadon, Tim Post
Produção: M.A. Faura, Niv Fichman
Fotografia: Nicolas Bolduc
Montador: Matthew Hannam
Trilha Sonora: Danny Bensi, Saunder Jurriaans
Estreia Brasil: 19/06/2014
Duração: 90 min.

Ficha Técnica – O Duplo

Título Original: The Double
Direção: Richard Ayoade
Roteiro: Avi Korine, Richard Ayoade
Elenco: Jesse Eisenberg, Mia Wasikowska, Andrew Gruen, Bruce Byron, Cathy Moriarty, Chris O'Dowd, Christopher Morris, Craig Roberts, Dirk Van Der Gert, Donal Cox, Gabrielle Downey, Gemma Chan, J. Mascis, James Fox, Jon Korkes, Karima Riachy, Kierston Wareing, Kim Noble, Kobna Holdbrook-Smith, Liam Bewley, Lloyd Woolf, Lydia Ayoade, Morrison Thomas, Nathalie Cox, Noah Taylor, Paddy Considine, Phyllis Somerville, Sally Hawkins, Stuart Silver, Susan Blommaert, Tim Key, Tony Rohr, Wallace Shawn, Yasmin Paige
Trilha Sonora: Andrew Hewitt
Estreia Brasil : 26/02/2015
Duração: 93 min.

Ficha Técnica – O Menino no Espelho

Direção: Guilherme Fiúza Zenha
Roteiro: André Carreira, Cristiano Abud, Guilherme Fiúza Zenha
Elenco: Giovanna Rispoli, Gisele Fróes, Laura Neiva, Lino Faciolli, Mateus Solano, Murilo Quirino, Ravi Hood, Regiane Alves, Ricardo Blat
Produção: André Carreira
Fotografia: ABC, José Roberto Eliezer
Montagem: Alexandre Baxter, João Flores
Trilha Sonora: Vinicius Calvitti
Estreia: 19/06/2014
Duração: 74 min.

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