EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 15 de junho de 2015

Sexo, Amor e Terapia / O que as Mulheres Querem



Autossabotagem

Num tempo em que a bandeira contra a misoginia e, felizmente, tremulada com vigor, resta até arriscado criticar títulos como Sexo, Amor e Terapia (França/Bélgica, 2014) e O que as Mulheres Querem (França, 2014) sob pena de ser taxado como preconceituoso e machista. Isto posto, encaremos o perigo.

Surpreendentemente, no sentido negativo, dirigido por mulheres, as obras em comento possuem o nítido afã de igualar mulheres com homens seja no comportamento, nos anseios e receios. Lamentavelmente, porém, o caminho tomado para tanto é o da vulgaridade e da futilidade, senão vejamos:
- Em Sexo, Amor e Terapia tem-se o clássico formato da comédia romântica hollywoodiana com destaque para um casal antagônico que natural e previsivelmente acaba se apaixonando; no caso em tela trata-se da junção de uma espécie de ninfomaníaca com um abstêmio sexual, o que abre as portas para um show de vulgaridades proporcionado por Sophie Marceau e sua Judith que, por seu turno, não recebem qualquer cuidado por parte da direção e do roteiro no que se refere a um tratamento minimamente respeitoso quanto a seu vício – algo que, por exemplo, fora providenciado em produções como Céu Azul (EUA, 1994) e Ninfomaníaca (Dinamarca, 2013) e que impediu que as respectivas atuações de Jessica Lange e Charlotte Gainsbourg tornassem vulgares os seres por elas interpretados. No longa-metragem francês dirigido por Tonie Marshall o homem é na medida do possível o ser controlado, racional vitimado por uma viciada em sexo que põe a perder todo o seu tratamento de abstinência. Não bastasse essa constrangedora definição de perfis, o filme ainda deixa no ar a impressão de que a mulher consegue sucesso em suas metas graças não a sua competência e sim aos favores sexuais prestados, o que afunda ainda mais as pretensões feministas de uma comédia cujo pouco riso provocado advém de uma sensação de vergonha alheia.

-Já em O que as Mulheres Querem o que se vê é a banalização dos anseios femininos. As mulheres jamais se bastam, sendo, sem exceção, influenciadas quase sempre negativamente pela ausência ou presença masculina. Sem um macho alfa ao seu lado – que pode ser personificado até por uma lésbica – as figuras femininas restam perdidas a procura de um elemento que as domine, sobretudo, pelo sexo, daí não raro serem caracterizadas como umas tresloucadas descontroladas. Neste passo, o talento individual é relegado a um plano subalterno pois o que realmente importa para aquelas é a companhia garantidora da felicidade e da satisfação sexual. Desta feita, o desastre é ainda maior do que o visto em Sexo, amor e Terapia afinal a diretora e atriz Audrey Dana não limita seu enredo a um número reduzido de personagens, criando, em contrapartida, um filme coral composto pelas histórias de onze mulheres grosseiramente relacionadas. Assim, sobram pontas soltas, arcos dramáticos mal definidos e personagens insuficientemente exploradas. Some-se a isso um roteiro incapaz de apresentar uma piada digna de gargalhada e que não raro apela para a escatologia e o resultado é um dos filmes mais pavorosos da recente produção cinematográfica francesa.
Fossem homens os diretores...

FICHA TÉCNICA - Sexo, Amor e Terapia


Título Original: Tu veux... ou tu veux pas?


Direção e Roteiro: Tonie Marshall                                                

Elenco: André Wilms, Camille Panonacle, Claude Perron, Fanny Sidney, François Morel, Jean-Pierre Marielle, Marie Rivière, Pascal Demolon, Patrick Braoudé, Patrick Bruel, Philippe Harel, Philippe Lellouche, Scali Delpeyrat, Sophie Marceau, Sylvie Vartan

Produção: Bruno Pésery, Diana Elbaum, Tonie Marshall

Estreia: 16/07/2015 (Brasil)

Duração: 88 min.



FICHA TÉCNICA - O que as Mulheres Querem 


Título Original: Sous les Jupes des Filles

Direção: Audrey Dana

Roteiro: Audrey Dana, Murielle Magellan, Raphaëlle Desplechin

Elenco: Alex Lutz, Alice Belaïdi, Alice Taglioni, Audrey Dana, Audrey Fleurot, Géraldine Nakache, Guillaume Gouix, Isabelle Adjani, Julie Ferrier, Laetitia Casta, Marc Lavoine, Marina Hands, Pascal Elbé, Sylvie Testud, Vanessa Paradis

Produção: Marc Missonnier, Olivier Delbosc

Fotografia: Giovanni Fiore Coltellacci

Montagem: Ismael Gomez III, Julien Leloup

Estreia: 18/06/2015 (Brasil)

Duração: 116 min.

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