EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 5 de junho de 2015

Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo com a Minha Vida



Um Trabalho Injustiçado

Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo com a Minha Vida (Brasil, 2011) é um trabalho deveras injustiçado, tendo em vista que a abundância de elogios a obra anterior do diretor Matheus Souza, Apenas o Fim¹ (Brasil, 2008), dessa vez se transformou numa avalanche de críticas impiedosas sobre o roteiro e contra a atuação de sua atriz principal Clarice Falcão.
Dito isso, explique-se o porquê da injustiça:
Em Eu Não Faço... o cineasta se vale novamente de uma toada verborrágica que, sem soar repetitiva,  o aproxima de modo cada vez mais saudável do estilo fílmico de Woody Allen²; neste passo, Souza retoma temas como o fracasso do amor e as dúvidas e questionamentos enfrentados por quem recém ingressara na fase adulta da vida. As dificuldades de entender os mais velhos quando já se é também um adulto, as incertezas quanto as escolhas profissionais e a vontade de voltar no tempo para uma época mais segura e confortável são assuntos já vistos em Apenas o Fim e agora revisados sob novo prisma. Destarte, se em seu primeiro longa-metragem predominava a ótica masculina no que tange os anseios e medos discutidos, em seu segundo título é uma mulher quem tem tais sensações estudadas, ademais, enquanto o filme de 2008 limitava o raio emocional ao jovem casal protagonista, o longa-metragem lançado em 2013 expande tal abrangência ao demonstrar que aqueles mais velhos possuem frustrações e pavores semelhantes em intensidade aos dos jovens e diferentes apenas quanto aos motivos.
Para uma melhor compreensão do que fora afirmado, cabe escrutinar a narrativa: sob o auxílio de Guilherme (Rodrigo Pandolfo) um novo parceiro amoroso, Clara, antes uma pessoa que vagava pelas manhãs fugindo dos compromissos acadêmicos e de vida, passa a ocupar seu tempo ‘livre’ atuando em várias missões de ajuda ao próximo e, por conseguinte, de autodescobrimento. Consequentemente, a garota recupera o diálogo com parentes distantes³ e principalmente com os pais, o que a permite não só investigar sua vocação como também estreitar a relação com seu colaborador e conselheiro Guilherme.
Neste contexto, cada uma das frentes de atuação da universitária é explorada a contento, mesclando-se uma a outra de modo fluido, dinâmico graças a uma ótima trilha musical que inclui nomes como Tiê, Mallu Magalhães, Silva e Marcelo Camelo, a um correto trabalho de montagem que não permite ao espectador esquecer as tarefas assumidas pela personagem, bem como a um roteiro enxuto que ainda encontra espaço para criar sequências curiosas quanto a criação de falsas expectativas⁴ e impecáveis quanto a incerteza dos sentimentos envolvidos⁵.
Desse modo, o passo a passo de Clara ao encontro das respostas almejadas pode até não se mostrar tão inédito quanto o anterior Apenas o Fim, porém, ainda assim é tão saboroso de acompanhar quanto. E, nesse aspecto, de grande importância se torna a presença de Clarice Falcão num desempenho incompreendido por muitos, mas que se adequa com exatidão ao que exigia a personagem: um perfil ainda com um pé na adolescência, deslocado no espaço e no tempo, inseguro e por vezes cínico. Com um comportamento aéreo, como quem flutua e pouco põe os pés no chão, Falcão personifica acertadamente a figura da jovem universitária ansiosa por estar em qualquer lugar menos em sua casa e faculdade, angustiada por querer viver qualquer vida menos a sua atual.
Eis um conjunto que merece o devido reconhecimento de suas qualidades.  
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1.    Leia mais sobre Apenas o Fim em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/11/apenas-o-fim.html.
2.    O próprio artista confessa sua influência de Woody Allen, senão vejamos:  "o jovem diretor Matheus Souza, de 24 anos, decidiu fazer cinema graças a Woody Allen. A inspiração no famoso diretor nova-iorquino, no entanto, teve razões bem mais mundanas do que artísticas. 'Woody Allen é um cara que mudou minha vida e é minha maior inspiração. Eu tinha 12 anos e era todo bizarro: gordinho, usava óculos, tinha espinhas e sofria bullying no colégio. Aí, vi um filme de um cara que era pior do que eu, mas pegava a Julia Roberts. Falei: ‘É isso que eu quero fazer da minha vida'”.(FONTE:http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2012/08/diretor-matheus-souza-custeou-novo-filme-com-dinheiro-do-proprio-bolso.html. Acesso em 05.06.2015).
3.    O que permite um interessante desfile, não remunerado, de estrelas na tela, exceto no que tange a escalação de Gregório Duvivier para um papel não condizente com a sua idade.
4.    A cena em que os pais da protagonista se reúnem durante o jantar para contar que reataram é um exemplo disso, na medida em que tudo levava a crer que seria uma separação dos dois o assunto a ser tratado.
5.  Destaque-se neste diapasão a bela finalização da sequência passada no Cristo Redentor quando uma declaração de amor é interrompida por uma triste mas sincera falta de reciprocidade.

FICHA TÉCNICA

Direção, Roteiro e Produção: Matheus Souza
Elenco: Alexandre Nero, Augusto Madeira, Bel Garcia, Bianca Byington, Camila Amado, Clarice Falcão, Cristiana Peres, Daniel Filho, Gregório Duvivier, Kiko Mascarenhas, Leandro Hassum, Nelson Freitas, Rodrigo Pandolfo, Wagner Santisteban
Fotografia: Luísa Mello
Estreia: 20/12/2013
Duração: 90 min.
Curiosidade:  Segundo Márcio Luiz: "Com orçamento de aproximadamente R$ 20 mil, baixíssimo até para os padrões brasileiros, a produção foi custeada com recursos do próprio diretor. 'Desde meu primeiro filme, eu estava tentando fazer cinema do jeito convencional, captando dinheiro, mas não estava rolando. Aí, fui contratado para fazer um roteiro e, com o dinheiro que ganhei, fiz esse filme. Parei de pagar todas as minhas contas durante dois ou três meses. Foram cortando tudo lá em casa: luz, gás, internet”, relembra o diretor'" (FONTE:http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2012/08/diretor-matheus-souza-custeou-novo-filme-com-dinheiro-do-proprio-bolso.html. Acesso em 05.06.2015).

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