EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 20 de julho de 2015

Hipócrates



De Médico e Cineasta Thomas Lilti Tem um Bocado

Hipócrates (França, 2014) condensa em menos de duas horas, sem resultar reducionista, muitos dos dramas médicos vistos em seriados como House e ER – Plantão Médico. Dentro deste contexto, o filme não teme as referências – e até as cita – eis que tem a seu favor um elemento diferencial que o coloca em um patamar mais elevado: o conhecimento de causa do diretor e roteirista Thomas Lilti¹ que curiosamente exerce de forma paralela ao trabalho cinematográfico a profissão de médico (clínico-geral), daí seu texto soar tão autêntico e se permitir abordar assuntos diversos sem resvalar na irrelevância ou na predominância de uma pauta sobre a outra.
Assim, Lilti – com a colaboração dos co-roteiristas Baya Kasmi, Pierre Chosson, Julien Liltidiscute a falência do sistema de saúde francês tocando em feridas que muito lembram a realidade brasileira, quais sejam a falta de leitos, o sucateamento de hospitais e a exploração injusta da mão de obra estrangeira. Não fosse o bastante, o cineasta ainda encontra espaço para tratar de temas como o corporativismo médico e o acobertamento dos erros de seus profissionais, a falta de vocação de vários demonstrada ante as dificuldades do ofício e a questão da eutanásia no que tange a necessidade e dificuldade de sua aplicação.
Cada um desse subtemas poderia certamente sustentar episódios completos de séries como as supracitadas ou até mesmo filmes de longa-metragem. Reunidos por Lilti os assuntos são desenvolvidos de forma fluida sem serem estendidos além do necessário e sem carregarem qualquer ranço panfletário; ao contrário, o diretor opta por preencher com bom humor sua obra – através da recriação hilária e um tanto surreal do encontro dos médicos no refeitório do hospital – o que colabora para torná-la ainda mais envolvente e cativante.
Uma grata surpresa, Hipócrates faz pensar o quão bom seria se todo diretor/roteirista tivesse vivido na pele ou estudado anos a fio aquilo que se propõe a tratar em seus respectivos títulos. O saber, empírico ou científico, suplanta o mero instinto ou faro.
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1.Em entrevista, Thomas Lilti assim declarou: “Hipócrates é [...] um filme autobiográfico sem ser uma história verídica. Benjamin sou eu, mas ele permanece como um alter-ego ficcional. Como ele, eu era um interno muito jovem. Como ele, meu pai era médico. Mas além das minhas experiências na medicina, eu queria falar sobre a estrutura e funcionamento do hospital através do meu protagonista” (Versão integral da entrevista em: http://medias.myfrenchfilmfestival.com/medias/132/24/137348/presse/hipocrates-dossie-de-imprensa-ingles.pdf. Acesso em 20.07.2015).

Ficha Técnica

Título Original: Hippocrate

Direção: Thomas Lilti

Fotografia: Nicolas Gaurin

Roteiro: Thomas Litti, Baya Kasmi, Pierre Chosson, Julien Lilti

Elenco: Jacques Gamblin, Reda Kateb, Vincent Lacoste, Marianne Denicourt, Felix Moati, Carole Franck, Julie Brochen, Thierry Levaret, Philippe Rebbot, Jeanne Cellard

Edição: Christel Dewynter

Duração: 102 min.

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