EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 23 de julho de 2015

Los Hermanos – Esse É Só o Começo do Fim da Nossa Vida



Pisando em Ovos

Em entrevista para a Rolling Stone,   Maria Ribeiro, diretora e produtora do longa-metragem Los Hermanos – Esse É Só o Começo do Fim da Nossa Vida (Brasil, 2012) confessa que já havia pedido autorização ao grupo para registrar as primeiras apresentações feitas após o anúncio da parada por tempo indeterminado, quais sejam a de abertura do show do Radiohead em 2009, e aquela ocorrida no festival SWU em 2010, o que fora negado pela banda que cedera ao pleito somente em 2012 quando da realização da turnê comemorativa de 15 anos. Neste passo, Ribeiro declara: “Eles realmente me abriram uma guarda que não abrem para ninguém [...] eu não ultrapassei nenhum limite [...] Isso fez com que eles se sentissem a vontade para ter intimidade nos momentos em que era possível”¹.
Tamanho cuidado no trato com os músicos é sentida do lado de cá da tela de forma pouco satisfatória, na medida em que fica nítida a impressão de que durante a captação das imagens a cineasta consistia numa figura que, recém adentrada numa comunidade, pisava em ovos para não desagradar ninguém. O resultado: um filme celebração que pouco revela sobre as figuras retratadas, haja vista o pequeno número de cenas de bastidores, em contrapartida a grande quantidade de sequências musicais que aproximam o documentário de um simples registro de show em DVD – viés esse que, não obstante as belas sequências filmadas nos palcos de diversas cidades, não supera o impacto do show Los Hermanos no Cine Íris lançado no mercado de home video em 2004.

Fã confessa da banda, Maria Ribeiro se contenta em contemplar os artistas enquanto cantam, tocam e conversam; de acordo com ela: A gente vive em uma era em que é tudo muito calculado [...] Então, para mim, você ver uma galera relembrando o passado, tocando Raul Seixas e conversando besteira é ouro puro”. Tal conclusão da diretora preza pelo subjetivismo podendo, desta feita, ser facilmente contestada ao passo em que a ausência de informações relevantes de seu filme não permite que o material captado seja encarado como “ouro puro”. Na verdade tal definição, para ser justo, merece ser dirigida não a Los Hermanos – Esse É Só o Começo do Fim da Nossa Vida e sim a Além do que se Vê, documentário de média duração incluído como material extra no supracitado DVD Los Hermanos no Cine Íris.
Produzido pelos próprios hermanos, Além do que se Vê registra os bastidores da gravação daquele que sem exagero se firmou como o melhor disco de rock/MPB dos anos 2000: Ventura. Recheado de momentos ímpares como o instante em que a canção O Último Romance é batizada, bem como o encontro da banda com os Paralamas do Sucesso, Além do que se Vê possui um valor histórico indiscutível na medida em que atesta o ápice da criatividade de uma banda em seu momento de maior excelência.
Na falta de material novo produzido pela própria banda, Maria Ribeiro poderia ter aproveitado o tempo e o espaço de seu filme para ao menos provocar os músicos e mostrar quem de fato são aqueles homens idolatrados por tantos. Lamentavelmente, porém, a diretora os mantém na zona de conforto e proteção contra a imprensa habilmente construída pela banda ao longo de sua trajetória. Não a toa, vê-se a permanência do protagonismo de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante – o qual, aliás, é quem mais interage com a câmera, mostrando um lado cômico distante da persona normalmente marrenta assumida perante repórteres – e a manutenção da posição coadjuvante de Bruno Medina e Rodrigo Barba, problema esse que é reconhecido pela própria documentarista nos seguintes termos: “Eu queria ter ouvido mais o Bruno e o Barba, porque acho que o filme acaba ficando mais com o Rodrigo e com o Marcelo”. Ao que parece a diretora acabou, portanto, sendo conduzida pelos músicos através do caminho preferido por esses quando o correto seria o contrário - o que não deixa de ser irônico tendo em vista que Ribeiro produziu o filme com verba própria para ter total liberdade artística.
Oportunamente lançado um semestre antes do início de mais uma turnê esporádica do grupo, o documentário - para o desespero dos fãs sedentos por informações e canções novas - não se arrisca, contentando-se, por conseguinte, em ser chapa branca, daí que sua projeção nos cinemas soa um tanto pretensiosa, afinal, considerando a forma como foi estruturado, poderia o filme se limitar a servir de material extra para algum novo registro de show porventura vendido no futuro – plataforma com a qual Além do que Se vê, mesmo tendo muito mais valor e importância, se contentou.
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1.  FONTE: http://rollingstone.uol.com.br/noticia/eles-realmente-me-abriram-uma-guarda-que-nao-abrem-para-ninguem-diz-maria-ribeiro-diretora-de-novo-documentario-sobre-o-/#imagem0. Acesso em 19.07.15.

Ficha Técnica

Direção: Maria Ribeiro
Estreia no Brasil: 14.05.15                        
Duração: 85 min.

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