EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O Último Cine Drive-In



Mudança de Hábitos

A metalinguagem em O Último Cine Drive-In (Brasil, 2014) se debruça não sobre o fazer cinematográfico – algo já visto em títulos de diversos gêneros – mas sim sobre o viés do mercado exibidor. Ok, o amor pela sétima arte e, principalmente, pelo espaço físico no qual ela é projetada já fora abordado em Cinema Paradiso (Itália/França, 1989), porém, o longa-metragem de estréia de Iberê Carvalho possui um elemento diferenciador na medida em que direciona o foco para o choque entre passado e presente acarretado a partir do fim de um cinema calcado na cultura analógica e que agora perde espaço em definitivo para o formato digital.
Tal transição, cabe lembrar, envolve não só a aposentadoria dos velhos projetores e as hoje antiquadas latas e rolos de filmes como também dos cinemas de rua que funcionavam como negócio de família. Numa realidade muito mais dinâmica e globalizada sobrevivem apenas os grandes complexos de extensões nacionais ou multinacionais instalados nos interiores de shopping centers para onde o público, interessado ou não em cinema, se voltara - situação que, lógico, também perpassa pela questão da falta de segurança das ruas. E é justamente a melancolia em torno dessa mudança de hábitos que O Último Cine Drive-In capta e explora de maneira tão encantadora em cenas que não raro dizem muito com o mínimo de diálogo – emblemática nesse sentido é a seqüência em que o velho proprietário do cine drive-in resolve experimentar um óculos 3D num ato de total estranhamento perante uma novidade fútil e acessória que não raro é tratada como mais importante que o próprio trabalho cinematográfico.
Infelizmente, porém, essa premissa tão significativa acaba sendo relegada a um segundo plano por um roteiro que não possui a audácia de manter a exclusividade de seu caráter poético e nostálgico rendendo-se, assim, a soluções e fórmulas agradáveis ao grande público. Ao trilhar um rumo cômico-aventureiro fortemente inspirado pela trama de Adeus, Lênin! (Alemanha, 2003) Iberê Carvalho faz sua obra padecer do mesmo mal que por vezes denuncia ao passo em que abre mão do valor artístico em benefício de uma estratégia que garanta maior rentabilidade financeira.
É sempre frustrante ver um potencial enorme não ser aproveitado a contento. O mercado exibidor do cinema analógico merecia um filme que sobre ele falasse e fizesse reverência do início ao fim.

FICHA TÉCNICA

Direção:  Iberê Carvalho
Roteiro: Iberê Carvalho, Zepedro Gollo
Elenco: André Deca, Breno Nina, Chico Sant’anna, Fernanda Rocha, Mounir Maasri, Othon Bastos, Rita Assemany, Rosanna Viegas, Vinícius Ferreira, Zé Carlos Machado
Produção: Carol Barboza, Pablo Peixoto
Fotografia: André Carvalheira
Montagem: Iberê Carvalho, J. Procópio
Trilha Sonora: Bruno Berê, Sascha Kratzer, Zepedro Gollo
Estreia: 20/08/2015 (Brasil)
Duração: 100 min.

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