EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O Último Concerto



O Despertar do que Inexistia ou Adormecia

Quarteto de cordas vê sua continuidade de vinte e cinco anos ameaçada após o líder do grupo ser diagnosticado com Mal de Parkinson. Dito isso, O Último Concerto (EUA, 2012) poderia facilmente se valer de tal enfermidade como tema direcionador de toda a narrativa, porém, o foco sobre a mesma é, felizmente, desviado na medida em que o assunto se revela de uma importância menor cuja real função é servir de estopim para uma sequência de crises internas desencadeadas entre os demais músicos um tanto fatigados pela convivência de mais de duas décadas.

Assim, enquanto um trata a doença degenerativa do amigo com frieza ímpar e parte imediatamente em busca de um substituto, outra prefere respeitar o momento de fragilidade e aguardar por uma improvável estabilidade do homem que em breve não mais conseguirá tocar uma única nota, ao passo que o terceiro aproveita para propor mudanças na organização hierárquica do quarteto como forma de se sentir mais valorizado. Some-se um romance proibido a esse emaranhado de problemas antes inexistentes ou adormecidos e o que se constata é um exemplo de como adultos podem se comportar de modo infantil e mesquinho perante situações de crise que podem vir ou não a lhes favorecer.
Dentro deste contexto, um elenco deveras competente vivifica os diversos dramas citados sem permitir que qualquer toada novelesca se instaure, o que, por óbvio, também é fruto da correta direção de Yaron Zilberman que estreia na direção de ficção entregando um interessantíssimo trabalho que vai além do mero entretenimento. Por certo, O Último Concerto seria mais valorizado caso pertencesse a grife europeia de cinema.

Ficha Técnica

Título Original: A Late Quartet
Direção: Yaron Zilberman
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Christopher Walken, Catherine Keener, Mark Ivanir, Imogen Poots, Liraz Charhi, Wallace Shawn
Roteiro: Seth Grossman, Yaron Zilberman
Produção: David Faigenblum, Emanuel Michael, Mandy Tagger, Tamar Sela, Vanessa Coifman, Yaron Zilberman
Fotografia: Frederick Elmes
Trilha Sonora: Angelo Badalamenti
Estreia no Brasil: 02 de Outubro de 2014
Duração: 105 min.

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