EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Let It Be

Presente Para a Humanidade
Inegavelmente a interpretação das imagens do documentário/show Let It Be (Reino Unido, 1970) carece de certo conhecimento prévio sobre a história dos quatro rapazes de Liverpool, tamanha a sutileza com a qual são mostradas as chagas que em breve culminariam no fim dos Beatles.
Neste passo, o que se vê é a quase que desesperada tentativa de Paul em manter o grupo unido e a incentivar a atuação em conjunto dos músicos seja compondo, seja tocando. Em contrapartida, Lennon, ainda imerso na onda flower power, dispensa atenção plena a sua musa da discórdia Yoko Ono, permanecendo, assim, alheio tanto as dissidências quanto a expansão do trabalho da banda.
Ringo, por sua vez, ocupa a tradicional posição coadjuvante, exceto pela relevante aproximação a George que, aparentemente, era o único dentre os demais a estimular o talento daquele.
George Harrison, aliás, pode até ter um pequeno tempo de aparição em tela, mas sua figura e seu nome soam sempre como fundamentais, dada sua notória intolerância para com Paul em discussões de ensaio e em virtude da declaração deste último, numa conversa com John, de que o filme Let It Be, apesar de realizado sem a concordância de George, poderia ser uma forma de reaproximar os artistas do público, visto que o jejum de shows, segundo fala de McCartney – também não contestada por Lennon – resultava do fato de Harrison não mais ver sentido naquilo.
Longe de querer vilanizar George – que, pelo visto, suportava cada vez menos as brigas e a convivência com o restante da banda – o documentário deixa que as imagens falem por si para que os próprios espectadores elaborem suas conclusões.
Muitos, por conseguinte, entenderam a obra como um pretensioso grito de liderança de Paul McCartney, o que, por certo, é um equívoco, eis que o artista domina o longa-metragem, assim como o álbum, de ponta a ponta em razão da pouca atenção dispensada ao trabalho pelas outras mentes criativas do grupo, o que, por outro lado, não implica numa queda de qualidade das músicas, afinal, Let It Be deixa evidente que mesmo quando parte da banda levava nas coxas uma nova produção, ainda assim, o produto final não era menos que brilhante.
Os Beatles, por fim, podem até não ter voltado a fazer shows para grandes platéias, entretanto, graças ao projeto deste longa-metragem, o desejo de Paul em voltar a tocar ao vivo se concretizou quando da histórica performance surpresa realizada no telhado da gravadora Apple, cuja captação de imagens servira para fechar com ousadia e originalidade o filme.
São eventos, como dito, históricos e que serviriam para prolongar a sobrevida do grupo quando, mesmo após seu término oficial, as canções gravadas foram compiladas e mixadas para serem lançadas como o derradeiro lp da banda.
Let It Be, desta feita, fora o presente de Paul para a humanidade, o que reforça a idéia do quão injusta fora a pecha de responsável pelo fim do sonho carregada durante anos por aquele, uma vez que as cenas do longa-metragem provam que tentar, insistir foram coisas que ele, sem dúvida, fez.

 

COTAÇÃO: ۞۞۞۞


Ficha Técnica

Produtores: Mal Evans, Neil Aspinall
Duração: 81 minutos

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