EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Mensageiro do Diabo

Love & Hate

A trama de O Mensageiro do Diabo (EUA, 1955) volta e meia é comparada ao conto da Chapeuzinho Vermelho, o que se mostra uma analogia nada exagerada, afinal, o “pastor” magnificamente interpretado por Robert Mitchum pode sim ser facilmente visto como a encarnação do lobo mau cuja ânsia, desta vez por dinheiro, leva à perseguição do casal de crianças incumbido de guardar o montante roubado pelo falecido pai.
Dentro deste contexto, o vilão, apesar de casar com a mãe das crianças não possui interesse algum em desfrutar dos prazeres sexuais que o matrimônio lhe permitiria, eis que a cópula seria um ato permitido tão somente para procriação.
Seria, então, aquele serial killer realmente crente na fé divulgada? Seria motivada a falta de libido por sua esposa em virtude de prováveis tendências pedófilas daquele homem? Seria, por fim, a vitória do amor sobre o ódio uma filosofia de vida levada para além dos nós dedos do falso pastor ou seria esse um mero embuste utilizado para conquistar pela fé a confiança de pessoas tão fragilizadas pela crise econômica da Grande Depressão?
O Mensageiro do Diabo não se preocupa, assim, em dar respostas prontas, consolidando, desta feita, uma ambigüidade que expandia, para a época, toda e qualquer ousadia já experimentada pelos filmes noir.  Tanta audácia torna até compreensível a conclusão moral e politicamente correta da produção, isso porque era necessário dar ao público daquele período um sopro de esperança – mesmo que após uma sequência de imoralidades – provando, desse modo, que o amor seria de fato capaz de suplantar o ódio.
Talvez por tripudiar tanto dos dogmas cristãos e/ou por dispor de uma psicologia sexual tão densa e acentuada, a mensagem final não fora suficiente o bastante para cativar o público, tornando o filme um retumbante fracasso comercial responsável por limitar a carreira de Charles Laughton como diretor apenas a esta experiência, o que é uma lástima inconteste, já que mesmo trabalhando com inegável requinte o cineasta obteve a façanha de reservar à sua obra o saudável frescor da rebeldia.

 COTAÇÃO: ۞۞۞۞

Ficha Técnica

Título Original: The Night of the Hunter
Direção: Charles Laughton
Produção: Paul Gregory

Elenco: Robert Mitchum (Harry Powell), Shelley Winters (Willa Harper), Lillian Gish (Rachel Cooper), James Gleason (Birdie Steptoe), Evelyn Varden (Icey Spoon), Peter Graves (Ben Harper), Don Beddoe (Walt Spoon), Billy Chapin (John Harper), Sally Jane Bruce (Pearl Harper), Gloria Castillo (Ruby).

Fotografia:Stanley Cortez

Direção de Arte:Hilyard M. Brown
Figurino:Jerry Bos
Edição:Robert Golden

Música:Walter Schumann

Duração: 93 minutos

Um comentário:

  1. Muito bacana a história do filme, me pareceu bastante interessante ...claro, fiquei bastante entusiasmado para conferir!!

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