EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 8 de março de 2011

Memórias


Metalinguístico e Autoral

“-Quem é esse cara para reescrever o final do meu filme? E desde quando esses [outros] caras estão envolvidos? O que está havendo?
-Eles são os novos chefes do estúdio.
-Como? A cada seis meses conheço novos chefes do estúdio...
-Eu também fico confusa. Mas, você sabe, a taxa de mortalidade nesse ramo é inacreditável!”

O, genial, diálogo acima transcrito oferece uma pequena mostra do tema abordado por Woody Allen em Memórias (EUA, 1980), qual seja sua relação com a indústria cinematográfica em meio a um momento da carreira no qual a comédia cedia considerável espaço ao drama.
Buscando adequar a arte a seu deprimido estado de espírito – iniciativa essa que, é claro, esbarra nos obstáculos impostos por produtores que não se conformavam com a mudança de gêneros proposta – o cineasta encarnado por Allen revê passos de sua trajetória, no que se incluem, sobretudo, os amores perdidos ao longo do caminho, para, desta feita, compreender o sentido não só do seu ofício como também da vida.
Apesar de em várias passagens evocar o imediatamente anterior Manhattan (EUA, 1979) – principalmente quando da sugestão de que pequenos e corriqueiros fatos do cotidiano são os responsáveis por mostrar a beleza que dá significado a nossas vidas – é inegável que a principal referência para a composição de Memórias é o longa-metragem 8 ½ de Fellini (Itália, 1963), o que, frise-se, não configura nenhum demérito da parte de Allen, já que este alcança um exemplar resultado ao conduzir sua obra com mão leve e recheá-la de diálogos nunca menos que perfeitos, qualidades essas que ganham ainda mais destaque por conta da bela fotografia em preto e branco que presta valiosa colaboração para as sequências que pedem certo tom surrealista e bem como pelo inteligente trabalho de direção de arte que, por exemplo, alterna os painéis que decoram o apartamento do protagonista em consonância com o humor deste.
Metalinguístico e obviamente autoral Memórias atesta uma das principais virtudes de Woody Allen: a capacidade de não se permitir iludir pela vaidade nem se deixar levar a sério – não obstante o inconteste talento reconhecido mundo afora. Consciente, portanto, de que nem tudo está sob seu controle, o diretor faz piadas, não raro, ácidas sobre si mesmo e sobre seu trabalho, mas o faz com uma despretensão que, felizmente, mantém o filme longe de qualquer toada egocêntrica ou, conforme as palavras de seu alterego Sandy Bates: “Você não pode controlar a vida (...) você só consegue controlar a arte e a masturbação; duas áreas em que sou um especialista absoluto!”.

Ficha Técnica
Título Original: Stardust Memories
Direção:Woody Allen
Produção: Robert Greenhut
Elenco: Victoria Zussin (Mrs. Payson)J.E. Beaucaire (Jaqui Safra)Noel Behn (Doug Orkin)Roy Brocksmith (Dick Lobel) Andy Albeck (Studio Executive)Woody Allen (Sandy Bates) Leonardo Cimino (Sandy's Analyst) Robert Munk (Boy Sandy) Larry Fishman (UFO Follower)Robert Friedman (Studio Executive) Michael Gorrin (Michael Goldstein) Ostaro (Astrologer)Simon Newey (Mr. Payson) Douglas Ireland (Studio Executive) Kenny Vance (New Studio Executive) Michel Touchard (Isobel's Son) Ken Chapin (Sandy's Father) Benjamin Rayson (Dr. Paul Pearlstein)Tony Roberts (Tony)Jack Rollins (Studio Executive) John Rothman (Jack Abel) Howard Kissel (Sandy's Manager) Helen Hanft (Vivian Orkin)Jessica Harper (Daisy)Charlotte Rampling (Dorrie) Edward S. Kotkin (Edward Kotkin)Max Leavitt (Sandy's Doctor) Marvin Peisner (Ed Rich) Daniel Stern Iryn Steinfink (New Studio Executive) Anne De Salvo (Sandy's Sister) Marie-Christine Barrault (Isobel) Laraine Newman (Film Executive)Joan Neuman (Sandy's Mother) Mary Mims (Claire Schaeffer) Candy Loving (Tony's Girlfriend)Renée Lippin (Sandy's Press Agent)Vanina Holasek (Isobel's Daughter) Victoria Page (Fan in Lobby)Frances Pole (Libby) Gabrielle Strasun (Charlotte Ames) Amy Wright (Shelley)Dorothy Leon (Sandy's Cook)Louise Lasser (Sandy's Secretary) Irving Metzman (Sandy's Lawyer) Bob Maroff (Jerry Abraham)
Estreia Mundial: 1980
Duração: 88 min.

Um comentário:

  1. "Memórias" é sem dúvida um filme "4 estrelinhas"... rsrs

    Ótimo filme, e a música "Stardust Memories" de Louis Armstrong , que também corresponde ao título original do filme, nao sai da cabeça... linda, linda, linda... tão linda quando a cena na qual é utilizada!

    Ótima crítica, Dario! ;)

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