Nathalie/Chloe

O Drama Francês. O Suspense Americano.

Catherine (Fanny Ardant) contrata prostituta de luxo (Emanuelle Béart) para, sob o pseudônimo de Nathalie, se aproximar de seu marido Bernard como forma de assim compreender os motivos que o levam a ser infiel.  Valendo-se desta sinopse, Nathalie X (França, 2003), se mostra desde logo como um trabalho de investigação sobre nuances comportamentais, razão pela qual seu contexto rapidamente indica que talvez o verdadeiro interesse da esposa não seja a explicação para o afastamento do marido, mas sim a sensação de reencontro com o homem e a mulher que certa vez eles foram, experimentada a partir da escuta dos relatos narrados pela garota de programa acerca dos encontros mantidos com Bernard.
Obviamente tal manipulação de sentimentos foge do controle das partes daí Catherine se deixar levar por certo instinto vingança que a faz saciar a libido despertada com pessoas diversas ao seu meio. Some-se a isso o surgimento de uma amizade entre ela e Nathalie marcada por uma ambigüidade que, entretanto, não ultrapassa o limite dos olhares.
Não obstante a tensão sexual que permeia a cadeia de eventos desenvolvida, o erotismo em Nathalie X assume um viés verborrágico, dispensando, portanto, imagens íntimas que acabam representadas de maneira igualmente eficaz graças a diálogos sexys, crus e, sobretudo, reais. Por isso, a obra não se propõe a construir sequências de grande impacto ou de notórios arroubos estilísticos, preferindo, desta feita, refletir o teor erótico emanado de gestos, toques, olhares e palavras ditas ou sugeridas, daí o filme representar um programa adulto – algo raro no cinema atual –, sensual, instigante e, por fim, honesto perante suas pretensões.
Neste diapasão, é curioso como a recente produção cinematográfica francesa tem contribuído para com a máquina de remakes na qual Hollywood tem se transformado, vide os exemplos de 72 Horas (EUA, Paul Haggis, 2010), baseado no original Tudo por Ela (França, Fred Cavayé, 2008), além de O Turista (EUA, Florian Henckel von Donnersmarck, 2010) que, como sabido, se trata da refilmagem de Anthony Zimmer, A Caçada de Jerôme Salle (2005). Inserido neste contexto, Nathalie X também ganhou sua versão americana através de O Preço da Traição (Chloe, EUA, 2010) que, como de praxe, mostrou significativas mudanças sobre o roteiro original como método de popularização da produção.
Assim, o enredo norte-americano para Nathalie... aposta numa variação da trama de Atração Fatal (EUA, Adrian Lyne, 1987) preferindo, por conseguinte, escancarar aquilo que era sutileza no longa-metragem francês e centrar seu foco sobre a transição de sentimentos que leva a  curiosidade a se tornar fetiche.
Se, por um lado, na versão original não interessava a criação de suspense, o mesmo não se pode dizer da realização norte-americana, eis que a infidelidade do marido não é confirmada até próximo ao término da exibição, sendo essa uma espécie de dúvida justificadora da fraqueza experimentada pela esposa que não tarda a se render ao jogo de sedução no qual é envolvida pela bela e jovem prostituta.
Desta feita, aquilo que Nathalie X se esmera em deixar aberto, O Preço da Traição se incumbe de fechar, explicar, postura essa que acaba se revelando falha por conta da ausência de razões plausíveis para a faceta obsessiva e violenta revelada pela garota de programa americana. Isto posto, enquanto a Nathalie de Emmanuelle Béart é construída de maneira madura, calejada e, por isso, retraída, a Chloe de Amanda Seyfried é mostrada como uma jovem inconstante, impulsiva e psicologicamente perturbada.
Neste aspecto, aliás, é preciso reconhecer a acertada escolha de Seyfried para interpretar um tipo sexy que foge ao arquétipo das moças de natureza angelical recorrentes em sua filmografia, afinal, além de se despir de qualquer pudor, a atriz ainda logra o êxito de enfrentar, em igualdade de condições, sua colega de cena a talentosíssima Julianne Moore. Juntas as duas esbanjam a química e a sensualidade tão vitais para o bom desempenho da proposta norte-americana de natureza picante.
Retornando a distinções existentes entre as obras, cabe dizer que no filme original a figura do marido (Gérard Depardieu) é bem mais presente e participativa, sendo, assim, delineado como o homem que arrependido dos erros de outrora tenta aceitar o momento de escape da mulher para, em seguida, tentar reconquistá-la. De forma diferente, em Chloe paira no ar uma interrogação para com a infidelidade do homem, o que, além de levantar suspeitas quanto a veracidade dos relatos feitos pela profissional do sexo, resulta em lamentável sacrifício de tempo em tela para Liam Neeson – que muito pouco interage com Moore e Seyfried –, perda essa, convenhamos, plenamente justificável tanto pelo viés do suspense adotado pelo projeto quanto pela necessária alteração do roteiro que se impôs quando a verdadeira esposa de  Neeson, ainda durante as gravações, veio a falecer, o que, por óbvio, comprometeu a presença do ator no set de filmagem.
O Preço da Traição, como é fácil concluir, esbarra em clichês inexistentes em Nathalie X, o que é uma pena já que, apesar de não representar um trabalho autoral, o diretor Atom Egoyan poderia ter elaborado um filme muito mais denso se tivesse maior apreço pela inegável maturidade do enredo original e se não manifestasse com tanta naturalidade sua rendição perante as fórmulas hollywoodianas de geração de receita.

COTAÇÕES:
Nathalie X - ☼☼☼☼             
O Preço da Traição - ☼☼☼

Ficha Técnica – Nathalie X
Título Original: Nathalie...
Direção: Anne Fontaine
Elenco: Gérard Depardieu (Bernard) Emmanuelle Béart (Nathalie/Marlène)Wladimir Yordanoff (François)Macha Polikarpova (Ingrid)Sasha Rucavina (Sacha Rukavina) Serge Boutleroff (Serge Onteniente-Boutleroff)Christian Aaron Boulogne (Ari Päffgen) Fanny Ardant (Catherine)Caroline Frank (Amie de Marlène) Marinette Lévy (Marie) Ida Techer (Amie de Marlène) Idit Cebula (Ghislaine)
Estreia no Brasil: 3 de Dezembro de 2004
Duração: 101 minutos

Ficha Técnica – O Preço da Traição
Título Original: Chloe
Direção: Atom Egoyan
Elenco: Mishu Vellani (Julie)David Reale (Boy)Meghan Heffern (Miranda)Laura DeCarteret (Alicia)Max Thieriot (Michael)Nina Dobrev (Anna)Julianne Moore (Catherine)Amanda Seyfried (Chloe)Liam Neeson (David)
Estreia no Brasil: 14 de Maio de 2010
Duração: 99 minutos

Comentários

  1. Assisti "O Preço da Traição" nos cinemas e na época, não tinha visto ainda "Nathalie X". Enfim, na época já não tinha gostado tanto pelo fato do diretor ter 'ousado' demais. Acabou ficando extravagante e claro, repleto de clichês. Completamente oposto ao original que trabalha com a sensualidade e nunca o sexo em questão.

    Mesmo até simpatizando com "O preço da Traição" pelas ótimas protagonistas. É,de fato, um remake indispensável.

    []s

    ResponderExcluir

Postar um comentário

POSTS RECENTES MAIS LIDOS