EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 2 de março de 2011

O Vencedor

Feijão com Arroz Digno

                               Não resta dúvida: dentre os esportes aquele que pode ser considerado o mais cinematográfico é o boxe, afinal, além do impacto visual naturalmente gerado, não raro o ringue é encarado no cinema como metáfora dos problemas particulares e/ou profissionais do protagonista. Inserido neste contexto, O Vencedor (EUA, 2010) lança mão da receita que tanto sucesso já garantiu para obras como Rocky (EUA, 1976) e Menina de Ouro (EUA, 2004), qual seja o enredo do atleta que, apesar de desacreditado por seus pares e submerso em dificuldades financeiras e familiares, calça as luvas para superar não só seus oponentes como também seus conflitos pessoais.
Embora padronizada essa estrutura narrativa traz uma inconteste diferenciação em O Vencedor, qual seja a variação de importância dada a determinados tópicos do roteiro, ou seja, não obstante configure uma retratação da verdadeira história de Micky Ward (Mark Wahlberg), quem, na verdade, ganha destaque a ponto de transitar das posições coadjuvante para principal é o ex-lutador viciado em drogas Dicky Ecklund, o que se dá por conta do acumulo maior de peculiaridades carregado pelo personagem bem como em razão da superior qualidade interpretativa de Christian Bale.
Nesta toada, cabe ressaltar que confiar ao limitado Mark Wahlberg a missão de contracenar com o camaleão Bale mostra-se como tarefa a qual o primeiro não faz jus – o que, nesse caso específico, é justificado pelo fato de Wahlberg ser também um dos produtores do filme. Porém, a disparidade de talentos que poderia configurar um elemento problemático da produção, acaba se impondo como grande trunfo, graças a coragem do diretor David O. Russel ao abraçar, sem qualquer hesitação ou constrangimento, tal mudança de pólos. Assim, o cineasta deixa que seus atores brilhem a vontade – o que é cumprido com folga por aqueles que, obviamente, dispõem de munição para tanto – e, neste passo, avisa desde a primeira seqüência que a sinopse possivelmente divulgada para o longa-metragem será relativizada ao longo da exibição.
O sucesso de tal estratégia, vale dizer, é facilmente constatado à medida que a produção paulatinamente alça voo, conquistando o público através da evolução não só do personagem principal como também dos coadjuvantes, dentre os quais se destacam, além de Bale, a polêmica matriarca de Melissa Leo e a sensual garçonete de Amy Adams - que aproveita a oportunidade para explorar, com total êxito, uma faceta sexy até então desconhecida em sua filmografia.
Por fim, ainda que O Vencedor represente um típico exemplo de “mais do mesmo”, salta aos olhos seu gingado perante os clichês do gênero, daí porque extremamente digno é seu resultado final, o que justifica as diversas indicações e premiações recebidas pelo elenco e equipe de produção.

COTAÇÃO: ۞۞۞

Ficha Técnica

Título Original: The Fighter
Direção: David O. Russel
Elenco: Mark Wahlberg ('Irish' Mickey Ward), Christian Bale (Dickie Eklund), Amy Adams (Charlene), Melissa Leo (Alice), Anthony Molinari (Shea Neary), Sean Patrick Doherty (Jimmy), Jackson Nicoll (Little Dickie), Jenna Lamia (Sherri Ward), Dendrie Taylor (Gail 'Red Dog' Eckland Carney), Jack McGee (George Ward), Bianca Hunter (Cathy 'Pork' Eklund), Chanty Sok (Karen), Erica McDermott (Cindy 'Tar' Ecklund)
Música: Michael Brook
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Direção de Arte: Laura Ballinger
Figurino: Mark Bridges
Edição: Pamela Martin
Estreia no Brasil: 04 de Fevereiro de 2011
Duração: 114 minutos

3 comentários:

  1. Pensei que fosses usar "Touro indomável" na linha comparativa, mas aí seria covardia...

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  2. O que marca é a atuação de Bale.
    Ah! Adicionei o seu blog no meu.
    Abraço e prazer!

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  3. Na primeira vez em que vi o filme, incomodou-me o roteiro clichê e novelesco e a abordagem sem personalidade de O. Russell. Mas numa revisão, em que consegui abraçar a caricatura a que o filme se entrega na maior parte das vezes, encontrei méritos que o fizeram ressoar até mesmo emocionante. A minha avaliação final é positiva, mas não fecho os olhos para o fato de a obra não ser um destaque maior num gênero do qual faz parte TOURO INDOMÁVEL.

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