EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Assalto ao Banco Central

Enlatado Tupiniquim

A partir da era dita pós-moderna formatos já consagrados do cinema passam a ser revisitados por produções de origens diversas. Na França dos anos 80, por exemplo, os profissionais cinematográficos dali “não conseguiram evitar que o público preferisse os pudins confeccionados com ingredientes milionários fabricados em Hollywood; passaram, então, a imitar, com sotaque francês, o estilo hollywoodiano que tanto criticavam”¹. Desse modo, são exemplos desta dicotomia: Imensidão Azul (Le grand Bleu, 1988), Nikita (1990), O Quinto Elemento (The Fifth Element, 1997) e Joana D’Arc (Jennae D’Arc, 1999) de Luc Besson, além de Rios Vermelhos (Les Rivières Pourpres, 2000) de Mathieu Kassovitz e O Pacto dos Lobos (Le Pacte des loups , 2001) de Christophe Gans.
Por seu turno, o Brasil, desde a retomada, passou a volta e meia se aventurar pelo campo da emulação dos enlatados americanos, o que, não raro, acabou descambando em obras tolas como o horroroso Segurança Nacional (2010). Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007), apesar de não poderem ser taxados como exemplos de cinema de entretenimento, revelaram, entretanto, uma considerável evolução em termos de técnica da indústria cinematográfica nacional, mostrando, assim, que seria apenas questão de tempo até um filme brasileiro acertar o tom característico dos blockbusters de ação norte-americanos. Eis que, então, surge o primeiro caso bem sucedido de enlatado tupiniquim, qual seja o filme Assalto ao Banco Central (Brasil, 2011).
 Neste diapasão, embora algumas pitadas de crítica social sejam apresentadas, pela via do humor, no primeiro longa-metragem de Marcos Paulo, é inconteste que o principal intuito da obra é divertir o público através de um molde à la Onze Homens e um Segredo (Ocean's Eleven, EUA, 2001)²,  meta essa que, apesar de alcançada, não escapa das seguintes ressalvas:
·  a construção psicológica dos personagens é feita de forma deveras superficial;
· a edição não-linear, mesmo agregando agilidade a trama, se mostra deveras tímida, deixando a sensação de que algo mais radical poderia ter sido feito nesse sentido;
· a sequência do assalto carece da devida dose de tensão, o que leva, ainda, a percepção do quão pouco aproveitada fora a figura do túnel cavado pelos bandidos, elemento esse que bem merecia ser tratado também como um personagem.
De qualquer forma, se Assalto ao Banco Central for analisado e visto como mero passatempo, não há como negar que seu resultado é satisfatório; todavia, para quem esperar por algo além disso, saltará aos olhos a impressão como-o filme-poderia-ser-bem-mais-do-que-é. Dentro deste contexto, lamentavelmente a produção se conforma em assumir um lugar no panteão das aventuras policialescas de rápido esquecimento, o que, convenhamos é uma pena.
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1.    NAZÁRIO, Luiz. Pós-Modernismo e Cinema in GUINSBURG, J. e BARBOSA, Ana Mae (orgs.) O Pós-modernismo. São Paulo: Perspectiva, 2008. P. Revista Preview. Ed. 20. Ano 2. Maio de 2011. p.348.2
2.     Conforme esclarece Milhem Cortaz, intérprete do personagem Barão, “esse não é um filme guiado pela realidade. Não temos compromisso de retratar o assalto ao Banco Central, mas de contar uma história de ação, que é diferente do que venho fazendo em filmes como Carandiru e Tropa de Elite, que são obras realistas e de cunho social” (FONTE: Revista Preview. ed. 22. julho de 2011. p.31).
     
COTAÇÃO: ۞۞۞

Ficha Técnica

Direção: Marcos Paulo
Roteiro: Renê Belmonte, com colaboração de Lúcio Manfredi e pesquisa de Taís Moreno, baseado em argumento de Antônia Fontenelle
Elenco:  Antonio Abujamra (Moacir)Lima Duarte (Chico Amorim)Marcello Gonçalves (Robson)Antonia Fontenelle (Regina)Juliano Cazarré (Décio)Cadu Fávero (Firmino)Heitor Martinez (Léo)Créo Kellab (Saulo)Fábio Lago (Caetano)Eriberto Leão (Mineiro)Tonico Pereira (Doutor)Giulia Gam (Telma Monteiro)Cássio Gabus Mendes (Martinho)Hermila Guedes (Carla)Vinícius de Oliveira (Devanildo)Milton Gonçalves (Pastor)Milhem Cortaz (Barão)Gero Camilo (Tatú)Jorge Medina (Vágner)
Música: André Moraes
Edição: Felipe Lacerda
Curiosidades:
“Todos os personagens da trama foram criados para o filme;
O total de 11 elementos na quadrilha (dez homens e uma mulher) é alusivo ao sucesso Onze Homens e Um Segredo, só que a versão brasileira dos bandidos é totalmente desprovida de glamour;
Com orçamento estimado em R$ 6.5 milhões, o longa teve 10% do montante financiado pelo governo do Ceará” (FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/assalto-ao-banco-central/noticias-e-curiosidades/).

Um comentário:

  1. Essas suas ressalvas pesaram bem mais para mim, já que, intencionalmente, o filme não me divertiu nada. Ria das atuações, da montagem estabanada, do uso totalmente equivocado da trilha, dos momentos de tentativa de paródia de grandes filmes (num discurso de Lima Duarte, lembrei-me até de ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ). Enfim, achei péssimo. [0/10]

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