EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Bonequinha de Luxo/Disque Butterfield 8

Cinema Super e Subestimado

um paradigma, por ter sido substituído, não perde a sua validade científica, ele apenas deixa de ser utilizado, cai em desuso. Em arte (...) a obra não deixa de ter valor por ter sido executada sob perspectivas passadas. A diferença (...) é que em ciência o pesquisador descarta mais rapidamente a sua história, os paradigmas são substituídos e esquecidos mais rapidamente. O referencial histórico tem, nesse sentido um valor menor, enquanto em arte esse valor histórico é de suma importância, sendo fundamental para a formação de qualquer artista”¹


Considerado um marco do romantismo no cinema, Bonequinha de Luxo (EUA, 1961) ditou moda e estabeleceu um ícone na filmografia de Audrey Hepburn, qual seja a sofisticada, mas fútil Holly Golightly. Passados mais de cinqüenta desde seu lançamento, o filme permanece tanto reunindo legiões de fãs quanto gozando de prestígio entre os críticos, circunstância essa que enseja o seguinte questionamento: é merecido ainda hoje tamanho sucesso?
Por certo não, afinal, se as suavizações ao romance de Truman Capote poderiam ser necessárias em 1961 - época em que o aspecto comportamental da sociedade americana ainda estava atrelado aos bons costumes da década anterior; quando, portanto, a revolução sexual e a contracultura das drogas ainda eram realidades distantes -, hoje a superficialidade com que a história original é abordada depõe imensamente contra o produto final.
Neste sentido, embora um certo ar de ambigüidade flutue pelo longa-metragem no que diz respeito as formas com que o casal de protagonistas garante seu sustento,  tal sugestão, vale dizer, é sempre amenizada através das inserções ora de cenas de puro pastelão ora por diálogos moralistas indicando peso na consciência dos personagens.
Desta feita, a prostituta e o gigolô nunca se assumem como tais, preferindo, assim, a imagem de meros receptores de favores financeiros, o que, infelizmente faz com que
- os conflitos soem rasos;
- as motivações para as mudanças resultem pouco convincentes.
Assim, tudo é arquitetado para tornar a experiência palatável a um gosto mediano e pouco interessado em polêmicas², daí a toada infantilóide da direção de Blake Edwards.
 Logo, é possível concluir que Bonequinha de Luxo mantém uma relevância estética que, infelizmente, não encontra correspondência quanto a seu conteúdo, isso porque é inegável o abismo de diferença qualitativa entre a obra e, por exemplo, o hoje esquecido Disque Butterfield 8 (EUA, 1960) que, abordando semelhante tema, compõe um retrato denso e adulto sobre a vida de uma garota de programa no que tange os reflexos psicológicos, familiares e afetivos da profissão.
Não fosse o bastante os diferentes tratamentos dados ao tema em termos de roteirização e direção, a distância entre projetos a princípio tão próximos quanto ao assunto abordado é acentuada em razão das diametralmente opostas interpretações de suas respectivas atrizes, visto que, ao contrário da interpretação abobalhada e fofinha de Audrey Hepburn, Butterfield 8 conta com a exuberante e melancólica performance de Elizabeth Taylor - laureada na ocasião com seu primeiro Oscar.
Apesar de lançado apenas um ano antes de Bonequinha de Luxo, Disque Butterfield 8 não fincou seus pés no passado como aquele, optando, desse modo, por olhar para frente e apostar nas reviravoltas sociais que o futuro traria logo adiante. Eis o injusto caso de obras, respectivamente, super e subestimadas.
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1.ZAMBONI, Sílvio. A Pesquisa em Arte: Um Paralelo Entre Arte e Ciência. São Paulo: Autores Associados, 1998. P. 36-7.
2.“No romance [original], Holly (...) tem, por exemplo, uma ‘aventura’ com outra mulher. Os produtores do filme acharam que tais atributos não eram apropriados à imagem de Hepburn e esses foram, então, omitidos” (FONTE: 501 Filmes que Merecem Ser Vistos. São Paulo: Larousse do Brasil, 2009. P. 299.

COTAÇÕES:
Bonequinha de Luxo - ۞۞        
Disque Butterfield 8 - ۞۞۞۞

Ficha Técnica – Bonequinha de Luxo
Título Original: Breakfast at Tiffany's
Direção: Blake Edwards
Produção: Martin Jurow e Richard Shepherd
Roteiro: George Axelrod
Elenco: Darryl Alan Reed (Sally Tomato) Audrey Hepburn (Holly Golightly) Beverly Powers (Miss Beverly Hills)Annabella Soong (Chinese Party Guest)Helen Spring (Party Guest)Dorothy Whitney (Mag Wildwood) Stanley Adams (Rusty Trawler) Joseph J. Greene (Mr. O'Shaunessy) Claude Stroud (Sid Arbuck)Patricia Neal (2-E (Mrs. Failenson))Buddy Ebsen (Doc Golightly)Martin Balsam (O. J. Berman)Mickey Rooney (Mr. Yunioshi) George Peppard (Paul 'Fred' Varjak)
Música: Henry Mancini
Fotografia: Franz Planer e Philip H. Lathrop
Direção de Arte: Roland Anderson e Hal Pereira
Figurino: Hubert de Givenchy e Pauline Trigere
Edição: Howard A. Smith
Estreia Mundial: 13.11.1961
Duração: 115 minutos

Ficha Técnica – Disque Butterfield 8
Título Original: Butterfield 8
Direção: Daniel Mann
Roteiro: John Michael Hayes e Charles Schnee, baseado em livro de John O'Hara
Produção: Pandro S. Berman
Elenco: Elizabeth Taylor, Laurence Harvey, Eddie Fisher, Dina Merrill, Mildred Dunnock, George Voskovec, Susan Oliver, Kay Medford, Jeffrey Lynn, Betty Field
Fotografia: Charles Harten e Joseph Ruttenberg
Direção de Arte: George W. Davis e Urie McCleary
Edição: Ralph E. Winters
Figurino: Helen Rose
Estreia Mundial: 04.11.1960
Duração: 109 min.

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