EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Pearl Jam Twenty




                           Justa Homenagem

                  Ao contrário de muitas biografias e filmes oportunistas que narram a “história” de celebridades momentâneas da música, a importância do Pearl Jam para o cenário musical internacional torna mais do que justo o registro cinematográfico de uma trajetória que já soma vinte anos. Dito isso, a roteirização e direção do projeto Pearl Jam Twenty (EUA, 2011) não poderiam estar em mãos melhores do que as de Cameron Crowe, eis que, além da óbvia intimidade com os assuntos abordados - dada sua anterior carreira como repórter musical -, o diretor traz em sua filmografia duas pérolas da junção rock e cinema, quais sejam os filmes Singles – Vida de Solteiro (EUA, 1992) e Quase Famosos (EUA, 2000).
                  Neste passo, PJ 20 resume em duas horas a história da banda desde seus primórdios em Seattle até os dias atuais quando, passados vinte anos, seus integrantes tiram lições dos acertos e erros acumulados com o tempo, realçando, por fim, que, independentemente dos percalços típicos de qualquer casamento, o grupo permanece seguindo em frente - tal como fala a música Alive, corretamente selecionada para encerrar o documentário.
                  Por isso, PJ 20 serve de aula introdutória para aqueles que desconhecem peculiaridades não só da banda como também da cena grunge que assolou a indústria da música nos anos 90 graças a contribuição tanto de Eddie Vedder e seus companheiros, quanto de Chris Cornell e seu Soundgarden, além, é claro, de Alice in Chains e Nirvana. E é fazendo um apanhado geral das circunstâncias espaciais e temporais ao longo de duas décadas que Cameron Crowe alcança seu objetivo maior: demonstrar como, apesar de ainda hoje se mostrarem intimidados e pressionados pela fama, Vedder e os demais membros do Pearl Jam não se esfacelaram enquanto grupo tal como ocorreu com a maioria dos artistas grunges. 
                  Assim, o documentário revela que a persistência da banda não se dera de forma tranqüila nem formatada, uma vez que os músicos jamais se eximiram de enfrentar e de dizer não as regras e exigências do mercado fonográfico e audiovisual, daí que a forma incomum e estranha com a qual sempre lidou com o sucesso fez do Pearl Jam uma das poucas bandas capazes de manter, com dignidade, um pé no mainstream e outro no universo alternativo de origem¹, o que, por certo, contribui para que o grupo mantenha seus fãs de outrora e angarie novos a cada turnê e/ou álbum novo.
                  Considerando que os componentes da banda não possuem a menor intenção de se portar como rock stars – embora Eddie Vedder seja assim visto por muitos – Cameron Crowe os entrevista, de maneira isolada, sem a intenção de obter revelações bombásticas e/ou histórias encenadas. Ato contínuo, a sobriedade atual dos músicos é posta em contraponto com imagens de arquivo de shows, principalmente de início de carreira, nos quais fúria e energia eram despejados sobre a plateia.
                  Desta feita, as imagens reunidas trazem mostras:
- do comportamento da banda nos palcos, tanto no passado quanto no presente²;
- da integração dos músicos quando os primeiros passos rumo ao estrelato eram dados.
                 Isto posto, falta a Pearl Jam Twenty revelar como se dá a convivência dos músicos hoje em dia, afinal, da forma como fora concluído, restou pouco palpável a amizade entre os mesmos. Problema de agenda, solicitação da própria banda ou opção estética do diretor? A resposta pouco importa para o fã já acostumado com as esquisitices de seus ídolos, mas pesa para o crítico incomodado com a carência de um elemento humano fundamental ao longa-metragem.
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1.Outro exemplo, neste diapasão, é encontrado na figura do Radiohead.
2.Apesar de o processo natural de envelhecimento dos músicos ter tornado suas apresentações mais comedidas, o mesmo não se pode dizer de canções cujas pancadas continuam tão fortes quanto a época de Ten – primeiro álbum lançado pela banda.


COTAÇÃO - ۞۞۞

Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Cameron Crowe
Produção: Andy Fischer, Cameron Crowe, Kelly Curtis, Morgan Neville
Fotografia: Nicola Marsh
Edição: Kevin Klauber e Chris Perkel
Estreia no Brasil: 20.09.2011
Duração: 119 min.

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