EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 21 de janeiro de 2012

Cavalo de Guerra

                                                           A Violação do Maravilhoso

                             Para o cineasta francês Jean Cocteau, o artista do cinema:

                                       jamais abandona a intenção geral de acolher o poético. [...] O mais 
                                       importante, sem dúvida, aquilo em que não deixa de insistir, é a 
                                       confiança no mundo como reserva do maravilhoso: a poesia, o 
                                       maravilhoso, não são produzidos pelo artista nem pela arte, são
                                       descobertos e veiculados. O artista é aquele que sabe reconhecer
                                       essa brecha que se abre inesperadamente.¹

                             Nitidamente intencionado a ser uma homenagem a época de ouro do cinema hollywoodiano, Cavalo de Guerra (EUA, 2011) possui uma clara estrutura em torno de sequências minuciosamente pensadas - quanto a enquadramento, iluminação e música - para gerar emoção nos espectadores.
                   Ocorre, porém, que tudo é tão deliberado, tão plasticamente fabricado que, ao invés de tocar, o filme só consegue aborrecer. Neste sentido, o teor poético, maravilhoso do qual Cocteau falava não advém aqui de uma fenda surgida de modo inesperado, sendo, na verdade, pretensamente produzida por Steven Spielberg que, assim, dispara um tiro no pé ao insistir em maneirismos piegas que só contribuem para tornar vazia a experiência.
                   Tecnicamente o longa-metragem pode lograr méritos em sua fotografia, como outrora sugerido, virtude essa que, entretanto, detém uma capacidade ínfima de salvar um projeto equivocado desde sua intenção de origem, qual seja sensibilizar o público através da manipulação, isto é, por meio da narração do drama um pobre animal que, além de forçado a superar limites, chega vencedor ao fim de sua jornada.
                    Essa zona de conforto de formatos pré-concebidos é o que, vale ressaltar, tem maculado a filmografia de Spielberg; afinal, foram poucas nas últimas décadas as apostas mais arriscadas e diversificadas feitas por ele, o que é uma pena eis que quando assim experimenta, o diretor não raro atinge bons resultados, conforme atestam, por exemplo, A Lista de Schindler (EUA, 1993), Prenda-me Se for Capaz (EUA, 2002) e Munique (EUA, 2005) .
                    Visto que esta é uma tendência não muito indicada para se ter como expectativa, resta a esperança de que após trabalhar com ETs, tubarões, dinossauros e cavalos, Spielberg resolva ter como protagonista de um futuro filme para a família o marreco sem nome que rouba para si todas as cenas nas quais aparece em Cavalo de Guerra. Taí o único personagem digno de destaque em um épico marcado por tipos insossos e não raro irritantes.
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1.AUMONT, Jacques. As teorias dos cineastas. Campinas: Papirus, 2004. p. 151.

COTAÇÃO - ۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: War Horse
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Bridget Lee Hall, Richard Curtis baseados no livro de Michael Morpurgo
Produção: Adam Somner, Frank Marshall, Revel Guest, Steven Spielberg
Elenco: Leonard Carow (Michael)Rainier Bock (Brandt)Patrick Kennedy (Tenente Waverly)David Kross (Gunther)Niels Arestrup (Avô)Tom Hiddleston (Capitão Nichols)Stephen Graham (Sargento Sam Perkins)Pip Torrens (Major Tompkins) Rainer Bock (Brandt)Benedict Cumberbatch (Major Stewart)David Thewlis (Lyons)Emily Watson (Rose Narracott)Peter Mullan (Ted Narracott)Celine Buckens (Emilie)Geoff Bell (Sgt. Sam Perkins)Robert Emms (David Lyons) Eddie MarsanToby Kebbell (Geordie)Jeremy Irvine (Albert)Nicolas Bro (Friedrich)
Música: John Williams
Fotografia: Janusz Kaminski
Direção de Arte: Andrew Ackland-Snow, Alastair Bullock, Molly Hughes, Kevin Jenkins, Neil Lamont e Gary Tomkins
Figurino: Joanna Johnston
Edição: Michael Kahn
Estreia no Brasil: 6 de Janeiro de 2012
Estreia Mundial: 28 de Dezembro de 2011
Duração: 146 min.

2 comentários:

  1. Falou e disse Dario!! Spielberg tá quase mergulhando nessa zoocinefilia do cinema americano de fantasia onde bichinhos falam e são mais que humanos!! Perfeito teu texto!!

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  2. Falou do marrecooo... que legal! \o/

    Concordo! ;)

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