EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Tabu



Inspiração Superada

Apesar de o cineasta Miguel Gomes relutar em assumir¹, rotineiramente afirma-se que Tabu (Portugal, Alemanha, Brasil, França/2012) é livremente inspirado no filme homônimo que Friedrich Wilhelm Murnau dirigiu em 1931 a partir de roteiro escrito em parceria com Robert J. Flaherty. Dito isso, faz-se mister compreender primeiramente a obra supostamente inspiradora para, adiante, analisar-se a inspirada, senão vejamos:
O trabalho finalizado por Murnau pouco tempo antes de sua trágica e precoce morte consiste no retrato de um amor proibido em meio aos costumes e tradições de uma comunidade exótica qual seja aquela dos nativos da ilha de Bora-Bora. Neste sentido, em razão da toada de forte tom documental/antropológico, não obstante a natureza ficcional do enredo, é possível concluir que o filme tem menos a ver com Murnau e mais com o Flaherty consagrado pela direção de documentários como Nanook, o Esquimó (1922), já que, como dito, a produção se concentra mais nas nuances de uma cultura do que propriamente sobre o caso de amor dos protagonistas. Por isso, se uma relação filmográfica tiver de necessariamente ser feita, o Tabu português dialoga na verdade com Aurora² (1927), outro título de Murnau, eis que ambos enveredam pelo drama de triângulos amorosos marcados pela infidelidade conjugal.
Com efeito, o Tabu de 2013 e o de 1931 possuem em comum apenas os nomes de seus dois capítulos (Paraíso Perdido/Paraíso) e a ambientação em áreas longínquas e paradisíacas, quais sejam, respectivamente, a África e a já citada Bora-Bora. Uma vez que poucas são as semelhanças existentes, não é errado concluir que a realização portuguesa se vincula desnecessariamente a alemã, assumindo, desta feita, o ônus de ficar sob a sombra de um clássico ainda que seja muito superior a este, isso porque, embora não inove no quesito roteiro, o Tabu dirigido por Miguel Gomes exemplifica o que ocorre quando a elegância se transforma em originalidade, vide as impecáveis técnicas de fotografia e decupagem empregadas.  Talvez se o atual Tabu fosse contemporâneo ao cinema mudo seria provavelmente considerado uma obra-prima da narrativa cinematográfica³ ao invés de passar tão despercebido pelo público e até mesmo por considerável fração da crítica especializada nacional como infelizmente passou.
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1.Aspecto esse sobre o qual se recomenda a leitura da entrevista transcrita no seguinte link: http://visao.sapo.pt/miguel-gomes-um-cineasta-sem-tabus=f656349#ixzz2DdyiJEsy.
2.Neste sentido, é mais do que óbvio que o nome Aurora dado a protagonista do filme português não é uma mera coincidência.
3. Não a toa o periódico alemão 'Berliner Zeitung', ressaltou que o filme possui “aspectos enervantes, que parecem ansiar por uma posterior apreciação acadêmica e pela canonização na história do cinema” (FONTE: http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/Interior.aspx?content_id=41564. Acesso em 27.12.13).

Ficha Técnica
Direção: Miguel Gomes
Roteiro: Miguel Gomes e Mariana Ricardo
Produção: Luís Urbano, Sandro Aguillar
Elenco: Laura Soveral, Ana Moreira, Henrique Espírito Santo, Carloto Cotta, Ivo Muller, Teresa Madruga, Isabel Cardoso, Telmo Churro
Fotografia: Rui Poças        Montagem: Telmo Churro, Miguel Gomes
Formato: 35 mm (parte 1) e 16 mm (parte 2), p/b, 1:1.37, Dolby SRD (uniformizado em 35 mm)
Estreia no Brasil: 28.06.2013
Duração: 118 min.

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