EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Uma História de Amor e Fúria



A Nossa Moral e a Deles

 “No livro Moral e Revolução, de Trótski, o mais inteligente da geração que fez a revolução soviética, há um texto terrível chamado ‘A Nossa Moral e a Deles’. Poucas vezes li algo tão diabolicamente justificador do crime como o que vai ali. (...) No texto, Trótski deixa claro que os revolucionários têm licenças que aos outros são vedadas porque, afinal, são donos da chave do futuro. Se estão na vanguarda da humanidade, os critérios com que são medidos e medem a si mesmos não são os mesmos dos homens comuns. (...) Eles estão certos de que a ‘nossa (deles) moral’ é superior a moral não-revolucionária”¹.

Ao demonstrar que a indústria cinematográfica brasileira também possui condições de avançar no campo da animação Uma História de Amor e Fúria (Brasil, 2013) agrega para si um inconteste valor histórico, Nesta toada, tanto em relação a estética quanto ao conteúdo, constitui uma grata surpresa o fato de o filme mais dialogar com as animações adultas orientais ao invés dos desenhos infantis norte-americanos. Ousadia e coragem, aliás, são características que não faltam a produção e a seu diretor e roteirista Luiz Bolognesi que elenca eventos específicos do passado para contar um pouco da História do Brasil conforme uma ótica própria que não necessariamente equivale ao que ensinam os livros didáticos.

Com efeito, Bolognesi não poderá jamais ser acusado de ficar em cima do muro, afinal, suas impressões e ideias são impressas com tamanha ênfase que de contador de histórias o cineasta assume uma posição panfletária ao, de maneira maniqueísta, tentar induzir o público a compartilhar de uma visão torta dos fatos que, ressalte-se, se mostra perigosa porque atualmente pregada com habitualidade cada vez maior entre os Poderes Executivo e Legislativo. Explique-se: Bolognesi desconstrói certas “verdades” históricas com acerto – como é o caso da explicação sobre quem realmente fora Duque de Caxias – mas exagera ao apontar heroísmo onde o que havia/há era/é o banditismo. Para o diretor, o cangaço e o crime organizado dos morros cariocas merecem ser saudados porque símbolos de resistência a governos opressores.
A julgar dessa forma, por exemplo, os black blocs e saqueadores entre eles infiltrados deveriam ganhar um feriado nacional em sua homenagem, assim como a quadrilha formada por petistas e demais mensaleiros deveria passar a ser vista como um projeto incompreendido de poder voltado a manter o país longe das garras das antigas elites, então, situacionistas que por décadas nos governaram. Por essas razões Uma História de Amor e Fúria representa, por um lado, um enorme salto técnico para o cinema de animação pátrio ao mesmo tempo em que presta um desserviço a toda uma nação cansada de falsos líderes e de verdades forjadas. Eis uma prova de que até no campo da animação o visual pouco importa perante o conteúdo.
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1.    AZEVEDO, Reinaldo. O País dos Petralhas. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 62.

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Luiz Bolognesi
Vozes: Selton Mello, Rodrigo Santoro, Camila Pitanga
Produção: Fabiano Gullane, Caio Gullane, Luiz Bolognesi, Laís Bodanzky, Marcos Barreto, Debora Ivanov e Gabriel Lacerda
Direção de Arte: Anna Caiado
Supervisão de Produção: Daniel Greco
Montagem: Helena Maura
Trilha Sonora Original: Rica Amabis, Tejo Damasceno e Pupillo
Desenho de Som e Mixagem: Alessandro Laroca, Eduardo Virmond e Armando Torres Jr.
Produção Executiva: Caio Gullane, Fabiano Gullane e Sônia Hamburger
Coprodução Executiva: Marcos Barreto e Renata Galvão
Duração: 75 min.

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