EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Aqui



Práticas de Ontem, Êxito de Hoje, Esperança de Amanhã

                Atrelado a Glauber Rocha, o lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” resume com precisão a prática de um cinema de guerrilha desprovido de recursos, mas com enorme disposição para a criação, realidade essa que se estende para além da época do Cinema Novo, permanecendo ainda hoje em voga como demonstram, por exemplo, as produções universitárias, vertente do fazer fílmico de considerável importância seja para a descoberta de novos talentos seja para a profissionalização de um ofício ainda bastante calcado na troca de favores e na camaradagem.
                     Mediante apoio ínfimo e sem verba alguma em caixa, Aqui, uma realização dos alunos da primeira turma do curso de bacharelado em cinema e audiovisual da Universidade Federal do Pará – UFPA, leva adiante a bandeira da “câmera na mão...” e o faz de maneira deveras honrosa, merecendo, assim, ser conhecida por um punhado de razões, dentre as quais saltam aos olhos: a qualidade de seu roteiro, a criatividade de seu visual e a eficiência de seu elenco – com especial destaque para o desempenho de Bárbara Fig.
         Isto posto, cabe dizer que a reunião de tantos elementos eficazes poderia resultar malsucedida e gerar um conjunto não harmonioso caso ausente o fator de agregação e principal trunfo de Aqui: o texto. De autoria do jovem Matheus Massias - única exceção, além do elenco, ao grupo de estudantes de cinema responsável pela obra - o roteiro impressiona pela maturidade com que de forma poética apresenta uma relação a dois definhada pelo tempo e a conseqüente angústia de um de seus membros ante a memória dos dias felizes e a iminência do fim que um futuro próximo reserva. Neste passo, através do uso farto, embora não comprometedor, de narração em voz over as confissões e declarações apaixonadas de uma mulher por seu amado são acompanhadas simultaneamente a sua inquietude acerca da dependência física e psicológica nutrida por aquele.
                 Feita essa descrição, uma comparação pode até ser firmada entre Aqui e o longa-metragem nacional mezzo-universitário mezzo-profissional Apenas o Fim (Brasil, 2008) de Matheus Souza, cujo enredo também explora a agonia, dessa vez, de um homem prestes a ser abandonado pela garota que para ele tudo representa. Dentro deste contexto, o que diferencia Aqui e Apenas o Fim – além da duração, por óbvio – é o bom humor empregado pelo último em meio a inúmeras citações nerd. Em Aqui não há respiro cômico, mas apenas a melancolia, opção nesse caso correta porque assim exigido pela narrativa, cujo único deslize cometido, aliás, resulta do exagero com que são retratados os efeitos psicotrópicos de uma espécie de fumo utilizado pela protagonista, sequência que, embora equivocada, não diminui a grandeza de um curta-metragem que com pouco mais de dez minutos consegue fazer aquilo que muitos levam horas para conseguir: a anatomia de uma relação a dois.

   FICHA TÉCNICA


Direção: Rodolfo Pereira 
Roteiro: Matheus Massias 
Produção: Carol Costa 
Elenco: Bárbara Fig, Joan Pablo Pina 
Fotografia: Yasmin Pires 
Direção de Arte: Victória Costa 
Edição: Rodolfo Pereira, Yasmin Pires, Victória Costa 
Ano: 2014

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