EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O Lobo Atrás da Porta



Conclusão Acachapante

  O Lobo Atrás da Porta (Brasil, 2013) denota referências óbvias. Em primeiro lugar, o enredo do relacionamento extra-conjugal de tons drásticos face a presença obsessiva de uma concubina lembra, num âmbito hollywoodiano, Atração Fatal (EUA, 1987) e, em termos nacionais, o dispensável Tolerância (Brasil, 2000). Ademais, sua estrutura narrativa montada a partir de flashbacks nos quais cada personagem conta o trecho da história que lhe cabe e convém se revela como uma variação daquilo que Akira Kurosawa realizara em Rashomon (Japão, 1950).

Dito isso, o que torna memorável o longa-metragem de Fernando Coimbra é a forma gradual com que, sem abrir mão do humor, constrói o suspense e delineia os ambíguos perfis de cada membro do triângulo amoroso, destacando-se neste diapasão a valiosa colaboração do elenco e em especial de Leandra Leal que acerta em cada uma das várias facetas de uma mulher tão vítima das circunstâncias quanto culpada por seus atos. Some-se a isso uma interessante escolha de locações, na medida em que é mostrado um lado do Rio de Janeiro sem glamour e não relacionado com a favela, além, principalmente, de um poderosíssimo ponto de virada do roteiro que culmina num desfecho não menos que impactante.
Manejada por outro cineasta, tal conclusão poderia parecer uma solução fácil para o enredo, porém, sob a batuta de Coimbra, o término resulta trágico, acachapante e coerente com o drama arquitetado, deixando o espectador estupefato, ainda que não integralmente surpreso, com aquilo que o ser humano é capaz de fazer.

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Fernando Coimbra
Produção: Caio Gullane, Fabiano Gullane
Elenco: Antonio Saboia, Fabiula Nascimento, Juliano Cazarré, Leandra Leal, Milhem Cortaz, Tamara Taxman, Thalita Carauta
Música: Ricardo Cutz
Fotografia: Lula Carvalho
Duração:101 min.

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