EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 30 de setembro de 2014

O que os Homens Falam



Clube do Bolinha

 No universo daquilo que se compreende por filme coral¹ O que os Homens Falam (Espanha, 2012) se destaca por conseguir a proeza de manter a regularidade e a qualidade em cada um de seus segmentos². Ademais, em um tempo no qual o público é bombardeado com narrativas fragmentadas por montagens que não permitem a um plano ter mais que alguns poucos segundos de duração, o longa-metragem nada  contra a maré ao deixar que as figuras retratadas dialoguem livremente sem cortes excessivos nem exageradas transições de plano e contra-plano. Na medida do possível, as conversas são filmadas com duas ou mais pessoas no mesmo quadro, estrutura essa que funciona sem incômodo graças aquilo que realmente importa: a presença de um texto apurado que apresenta seres em crises de meia idade, frustração e arrependimento sem fazê-lo de modo piegas nem caricato.

Aliás, o papo do clube do bolinha visto no filme denota que homens e mulheres não necessariamente são tão diferentes como se imagina quando o assunto são suas angústias. Dentro deste contexto, por mais sérios que os assuntos tratados por vezes sejam, o diretor Cesc Gay evita que seu trabalho se torne sisudo ao passo em que injeta no mesmo sutis doses de humor, estratégia que alcança seu principal momento na sequência que conta com um inspiradíssimo Ricardo Darín fazendo aquilo que melhor sabe: interpretar um homem comum.
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1.     Conforme explica Ricardo Calil, o filme coral envolve “uma narrativa que, em vez de se concentrar em uma ou duas vozes, ramifica-se por um conjunto de personagens (FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u65727.shtml. Acesso em 13.09.13).
2.  É certo que a penúltima história, contada antes do encontro de personagens que aparentavam não ter qualquer relação entre si, é a menos envolvente, porém, em momento algum descartável eis que relevante quanto ao seu conteúdo.

Ficha Técnica

Título Original: Una Pistola em Cada Mano
Direção e Roteiro: Cesc Gay
Produção: Marta Esteban
Elenco: Alberto San Juan, Anna Ycobalzeta, Candela Peña, Cayetana Guillén Cuervo, Clara Segura, Eduard Fernandez, Eduardo Noriega, Ernest Villegas, Javier Cámara, Jordi Mollà, Leonardo Sbaraglia, Leonor Watling, Luís Tosar, Mar Ulldemolins, Míriam Tortosa, Oriol Freixenet, Ricardo Darín, Sílvia Abril, Simó Vilallonga
Fotografia: Andreu Rebés
Estreia no Brasil: 22.05.14
Duração: 95 min.

2 comentários:

  1. Ótimas colocações, Dario! Mais uma vez conseguiste descrever bem o que de melhor o filme nos traz, que, nesse caso, é sem dúvida o diálogo. E, como mulher, foi sensacional me deparar com o retrato de um homem mais humanizado, mais próximo de nós até, bem diferente do tradicional "hombre" da maioria dos filmes. E ainda tem o formidável Darín! Minha tv por assinatura é programada para gravar filmes com ele e semana passada lá estava esse me esperando, o qual eu desconhecia existir até então. Grata surpresa!

    Aline Souza Monteiro

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    1. Bacana Aline!
      Obrigado por prestigiar o blog!

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