EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 19 de junho de 2016

Meu Rei



Ontem Melhor que Hoje

Não faltam exemplos de radiografias do matrimônio feitas pelo cinema. De Namorados Para Sempre (EUA, 2011) até o principal título desse filão e clássico absoluto Cenas de um Casamento¹ (Suécia, 1973), a sétima arte é povoada por casais e seus altos e baixos. Maïwenn Le Besco, diretora de Meu Rei (França, 2015), sabe disso e, não a toa, arrisca dar passos que diferenciem seu trabalho nesse contexto.
Para tanto, a cineasta se vale de uma narrativa paralela que trata do passado e do presente. Nos dias de hoje Tony busca a recuperação física para sérios danos no joelho oriundos de um acidente sofrido enquanto esquiava. Isolada numa espécie de resort a mulher aproveita para lembrar os traumas e dores de ontem oriundos do relacionamento doentio mantido com o agora ex-marido. Neste particular, uma sequência é bastante representativa, qual seja aquela em que a protagonista é consultada por uma psicóloga e ri da relação que a profissional faz entre o joelho quebrado e o estado de espírito/mental da acidentada. Por mais forçada que a comparação possa soar é exatamente isso que Maïwenn quer apresentar: uma metáfora.
As agruras corporais sofridas hoje nada mais são que efeitos dos anos de abuso psicológico enfrentados pela personagem feminina. Neste diapasão, a estranheza do amor retratado e da atual realidade vivida pela protagonista em meio a outros acidentados traz à lembrança o espetacular Ferrugem e Osso²; lamentavelmente, porém, Meu Rei não alcança notas tão altas como aquele, o que é resultado do grau diverso de eficiência e de interesse despertados por cada uma de suas tramas paralelas.
Explique-se: as dificuldades enfrentadas por Tony para recuperar a plenitude física pouco acrescentam além da metáfora pretendida. Tal considerável fração da narrativa se mostra, portanto, dispensável, o que, há de se convir, é um problemas sério se lembrado for que este deveria ser o fator diferencial da narrativa que, carente de ineditismo, acaba salva da pelo talentoso elenco, no que se destacam Vincent Cassel ora divertido ora sedutor ora assustador e Louis Garrel saindo da zona de conforto num papel coadjuvante que nada possui de galanteador e que funciona como alívio cômico para a trama, por mais estapafúrdio que isso possa parecer.
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1.     Cabe a ressalva de que Cenas de um Casamento foi primeiramente lançado como série de televisão sendo posteriormente editado para o cinema. Leia mais sobre o filme em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/separacaocenas-de-um-casamento.html.
2.     Leia mais sobre Ferrugem e Osso em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/10/ferrugem-e-osso.html.

Ficha Técnica

Título Original: Mon Roi
Direção: Maïwenn
Produção: Alain Attal
Roteiro: Etienne Comar, Maïwenn
Elenco: Vincent Cassel, Camille Cottin, Emmanuelle Bercot, Félix Bossuet, Isild Le Besco, Louis Garrel, Ludovic Berthillot, Romain Sandère, Vincent Nemeth
Fotografia: Claire Mathon
Montagem: Simon Jacquet
Trilha Sonora: Stephen Warbeck
Estreia: 25/08/2016 (Brasil)
Duração: 124 min.

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