EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 5 de junho de 2016

Victoria



Discrição

O que Victoria (Alemanha, 2015) possui de simples em seu enredo apresenta, em compensação, de complexo quanto a forma com que aquele fora transformado em imagens, afinal, como sabido, durante seus 134 minutos não há um corte sequer em seu take.

Neste passo, há de ser dito que a simplicidade da trama sobre a jovem estrangeira que há pouco tempo em Berlim se envolve num assalto após conhecer as pessoas erradas possui uma capacidade de comunicação universal não dotada, por exemplo, por outro longa-metragem conhecido por também ser composto de um só plano sem corte, qual seja A Arca Russa. Enquanto a exuberante realização de Aleksandr Sokurov, para uma completa absorção, exige do espectador certa dose de conhecimento prévio sobre a história da Rússia, em Victoria o único desafio imposto a plateia consiste em suportar a primeira metade de sua duração, eis que desenvolvida de maneira arrastada embora inevitável seja reconhecer este mal como necessário na medida em que estabelece as conexões entre os personagens e justifica seus comportamentos e escolhas. Contudo, vencida essa etapa inicial, Victoria adentra numa espiral de tensão, recompensando, assim, a paciência do público que segue, então, preso a cadeira.
Com efeito, há de ser enfatizado que em nenhum de seus dois atos a produção faz do plano-sequência um recurso a ser obrigatória e frequentemente constatado. A bem-vinda discrição nesse sentido destoa do que, por exemplo, fora visto em Birdman (EUA, 2014)¹, filme cujos movimentos de câmera funcionam quase que como um personagem a narrar a trama; em Victoria, ao contrário, a câmera privilegia os planos fechados acompanhando o elenco quase sempre muito próxima a ele, o que não significa dizer que, por isso, a sua condução de câmera deva ser menos saudada. Dentro deste contexto, um olhar atento consegue perceber que, apesar de modestamente não buscar se vangloriar de seu feito, o diretor Sebastian Schipper regeu um trabalho de complicadíssimo modus operandi e logística principalmente no que se refere a questão da iluminação,  haja vista que suas cenas externas acompanham com perfeição ímpar a transição da madrugada para o inicio de uma manhã de sol, ao passo que suas “tomadas” internas percorrem espaços ora subterrâneos – como a garagem de um prédio e a danceteria onde na penumbra desfilam tipos diversos – ora exíguos – como o interior de elevadores – sem que nenhum traço de qualidade da imagem se perca. Ademais, caso a inserção de falas e ruídos não tenha sido realizada exclusivamente durante a pós-produção, a devida menção elogiosa há, portanto, de ser igualmente garantida a equipe de captação de som direto, dada a dificuldade de utilização de microfones em filmagem tão adversa para tanto.
Victoria é, desta feita um trabalho de notável requinte técnico que não se deslumbra consigo mesmo, o que, há de se convir, é um feito e tanto que em última instância transparece uma  crucial característica que não raro diferença as produções europeias das norte-americanas: a falta de egolatria.
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1.     Leia mais sobre Birdman Ou (A Inesperada Virtude Da Ignorância) em http://www.setimacritica.blogspot.com.br/2015/05/birdman-ou-inesperada-virtude-da.html

Ficha Técnica

Direção: Sebastian Schipper
Roteiro: Eike Frederik Schulz, Olivia Neergaard-Holm, Sebastian Schipper
Elenco: Adolfo Assor, André Hennicke, Andreas Schmittka, Anna Lena Klenke, Anne Düe, Ansgar Ballendat, Bernd Weikert, Burak Yigit, Daniel Fripan, David Micas, Eike Frederik Schulz, Franz Rogowski, Frederick Lau, Hans-Ulrich Laux, Jan Breustedt, Laia Costa, Martin Goeres, Max Mauff, Nadja Laura Mijthab, Philipp Kubitza, Timo Honsa
Produção: Anatol Nitschke, Catherine Baikousis, Christiane Dressler, David Keitsch, Jan Dressler, Sebastian Schipper
Fotografia: Sturla Brandth Grøvlen
Montagem: Olivia Neergaard-Holm
Trilha Sonora: Nils Frahm
Estreia Brasil: 24.12.2015
Duração: 138 min.

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