EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cópia Fiel

Diálogo Intertextual

Para Walter Benjamin:
Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existência única no lugar em que ela se encontra. É nessa existência única, e somente nela, que se desdobra a história da obra. Essa história compreende não apenas as transformações que ela sofreu, com a passagem do tempo, em sua estrutura física, como as relações de propriedade em que ela ingressou.
(...) O aqui e agora do original constitui o conteúdo da sua autenticidade (...). A esfera da autenticidade, como um todo, escapa à reprodutibilidade técnica (...) a reprodução substitui a existência única da obra por uma existência serial”¹.
Desta feita, segundo o pensador, a cópia da experimentação artística é destituída da ‘aura’ inerente ao produto original, demérito esse que pouco preocupa o escritor inglês James Miller (William Shimell) que, por sua vez, prefere pregar nas páginas de seu livro Copie Conforme o valor prático da reprodução como uma qualidade capaz de igualá-la em importância ao material no qual fora baseada – conclusão que, aliás, já havia sido em parte reconhecida pelo próprio W. Benjamin nos seguintes termos: “a reprodução técnica pode colocar a cópia o original em situações impossíveis para o próprio original. Ela pode, principalmente, aproximar do indivíduo a obra”².
Cópia Fiel (França/Itália/Irã, 2010) já seria deveras interessante caso seu foco se limitasse a questão supracitada, mas eis que o diretor Abbas Kiarostami saca uma genial carta da manga ao transplantar tais conceitos teóricos para o campo prático das relações humanas, estabelecendo, assim, entre o casal de protagonistas um embate fictício que, entretanto, reproduz com ‘fidelidade’ o cotidiano e os dramas vividos entre pessoas que ao longo dos anos perderam o compasso do amor.
Por um momento surreal, o diálogo travado entre o escritor e a dona de galeria – estupendamente interpretada por Juliette Binoche – vai aos poucos conquistando o espectador seja pela carga dramática, seja pelo humor sutil, seja pela eficiência demonstrada como exemplo prático de uma tese.
Dentro deste contexto, conforme reconhecido por muitos, o enredo de Cópia Fiel inegavelmente remete a Antes do Amanhecer (EUA, 1995) e Antes do Pôr-do-Sol (EUA, 2004) de Richard Linklater, pois, tal como no primeiro caso, tem-se no filme de Kiarostami um homem e uma mulher de nacionalidades distintas que ao longo de um dia – e de muitas caminhadas – descobrem-se atraídos um pelo outro, ao passo que a maturidade dos personagens de Ethan Hawke e Julie Delpy, vista na sequência da história de Linklater, se relaciona com a ausência de inocência dos seres vividos por Binoche e Shimell, ressalvado, por óbvio, o fato de que enquanto os primeiros rememoram sentimentos entre eles realmente partilhados, estes últimos não passam de reflexos das suas reais experiências, isto é, uma cópia fiel - logo, falsa - da realidade.
Ao criar uma narrativa que traça uma linha paralela entre a arte e a vida, teria Kiarostami forjado um método esdrúxulo e, portanto, forçado de sustentação das idéias defendidas por seu protagonista? Por certo não, afinal "A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade" (Pablo Picasso).
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1.     ‘A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica’ in Magia e Técnica, Arte e Política. p. 167-8
2.   Op. Cit. p. 168.

COTAÇÃO۞۞۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: Copie Conforme
Direção e Roteiro: Abbas Kiarostami
Produção: Nathanaël Karmitz, Angelo Barbagallo, Charles Gillibert, Marin Karmitz e Abbas Kiarostami
Elenco: William Shimell, Juliette Binoche, Jean-Claude Carrière
Fotografia: Luca Bigazzi
Direção de Arte: Ludovica Ferrario
Edição: Bahman Kiarostami
Estreia no Brasil: 18 de Março de 2011
Duração: 106 min.

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