EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Onde Está a Felicidade?/Elvis & Madona

Que Almodóvar Não Veja!

Elvis & Madona (Brasil, 2010) e Onde Está a Felicidade? (Brasil, 2011) são duas produções nacionais contemporâneas que se assemelham pela influência nelas percebida do cinema de Pedro Almodóvar, característica em comum essa que na prática, infelizmente, não equivale ao mesmo padrão de qualidade dos trabalhos do diretor espanhol, senão vejamos:
Dirigido por Carlos Alberto Riccelli, Onde Está a Felicidade? é um equívoco do início ao fim, eis que calcado em soluções e piadas velhas que tornam o filme deveras datado. Dentro deste contexto, a roteirista e protagonista Bruna Lombardi – não obstante seu charme e beleza – revela uma total falta de veia cômica, entregando, assim, uma interpretação tão sem graça quanto a história da apresentadora de programa televisivo por ela criada, aspecto esse que, vale dizer, frustra as expectativas de qualquer espectador mais exigente que aguarde - em se tratando de um filme que aborda a questão do Caminho de Santiago de Compostela – um tratamento religioso/espiritualista aos moldes do que Luis Buñuel fizera em A Via Láctea (França/Itália, 1969). Nesse caso, graças a uma trama de personagens rasos e de motivações superficiais, o sentido da peregrinação é desperdiçado, dado o contentamento de sua utilização enquanto simples ambientação-cartão-postal.
Ah, a influência de Almodóvar, devidamente negada por Riccelli e Lombardi, se mostra nos cenários e figurinos kitsch, assim criados para sugerir que a vida real da personagem principal costuma se confundir com aquela experimentada em frente as câmeras de televisão, justificativa essa que, convenhamos, não é suficiente para tornar cool o que no fundo é cafona.
Elvis & Madona bebe da bizarrice sexual costumeiramente abordada por Almodóvar ao tratar do relacionamento amoroso entre uma lésbica e um transexual. Neste passo, a curiosa premissa do longa-metragem se perde em meio a um roteiro novelesco de traços ora previsíveis ora implausíveis e a uma direção que jamais evita o tom caricato e afetado dos seres retratados - daí a Lady Madona do ator Igor Cotrim resultar num dos personagens mais insuportáveis da recente cinematografia brasileira.
Isto posto, sob pena do resultado se mostrar inócuo mediante uma inevitável comparação, fica a lição: a influência por si só de nada vale se não acompanhada da devida dose de talento e do mínimo esforço autoral de quem a manipula.

COTAÇÕES:
Onde Está a Felicidade? - ۞۞     
Elvis & Madona - ۞۞

Ficha Técnica - Onde Está a Felicidade?
Roteiro: Bruna Lombardi
Estreia no Brasil: 19 de Agosto de 2011
Duração: 110 min.

Ficha Técnica – Elvis & Madona
Direção e Roteiro: Marcelo Laffitte
Estreia no Brasil: 23 de Setembro de 2011
Duração: 105 min.

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