EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 15 de outubro de 2011

Homens e Deuses

Contundentes Passos de Cágado

Homens e Deuses (França, 2010) definitivamente não é um filme de fácil degustação. Não que a obra se mostre hermética, afinal a dificuldade reside exclusivamente na lentidão de seu ritmo. Também pudera, o longa-metragem acompanha a rotina de monges em um monastério localizado em território da Argélia abalado por conflitos, leia-se, extermínios comandados por fundamentalistas islâmicos; logo, a toada, em respeito a memória e ao modo como de fato viviam os homens que encarnaram esta história verídica, não haveria de ser alterada em nome da obediência a padrões cinematográficos consolidados.
Assim, o dilema dos monges – fugir do lugar onde correm risco de morte ou permanecer ali ao lado de seu rebanho – é construído de maneira paulatina, não deixando brecha para superficialidades – daí os cortes serem sempre precisos de modo a evitar que a tensão dos personagens se confunda com sentimentalismos baratos. Some-se a isso a acertada opção do diretor Xavier Beauvois ao dispensar a piedade da platéia para com os seres retratados, conduta essa que, frise-se, constitui o grande trunfo do drama, eis que, desta feita, os freis não são apresentados nem como heróis nem como pobres vítimas, mas sim como seres falhos que também se permitem titubear e questionar não só o valor de suas missões como também a própria força de suas crenças – aspecto esse para o qual se mostra de grande responsabilidade pelo êxito das intenções pretendidas, o estupendo trabalho dos atores responsáveis pelo núcleo dos monges, eis que sem muitas palavras nem muitos gestos todos são eficientes quanto a tarefa de exprimir o medo e a dúvida incrustados no cotidiano dos personagens.
Por trás do obstáculo da narrativa arrastada, Homens e Deuses entrega uma relevante análise sobre a intolerância religiosa, bem como sobre a capacidade de superação da fé perante a essência selvagem que trazemos em nossos íntimos. Eis, portanto, um valioso exercício de reflexão.

COTAÇÃO۞۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: Des Hommes et des Dieux
Direção: Xavier Beauvois
Produção: Pascal Caucheteaux e Etienne Comar
Elenco:Michael Lonsdale (Luc)Loïc Pichon (Jean-Pierre)Lambert Wilson (Christian)Philippe Laudenbach (Célestin)Olivier Rabourdin (Christophe)Xavier Maly (Michel)Jacques Herlin (Amédée)Jean-Marie Frin (Paul)
Fotografia: Caroline Champetier
Edição: Marie-Julie Maille
Estreia no Brasil: 15 de Abril de 2011
Duração: 122 minutos
Grande Cena: a última ceia dos monges realizada ao som da música de Tchaikovsky/O Lago dos Cisnes.

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