EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Morte em Veneza

Obra Aberta

Theodor Adorno certa vez afirmou: “A grandeza de uma obra de arte está fundamentalmente no seu caráter ambíguo, que deixa ao espectador decidir sobre o seu significado”. Neste diapasão, a ambiguidade é o elemento brilhantemente manuseado por Luchino Visconti em Morte em Veneza (Itália, 1971), afinal, para o personagem principal do longa-metragem, o músico Gustav von Aschenbach, a beleza suprema, para ser alcançada, exigiria um rigor formal que rejeitaria, por conseguinte, qualquer toada propícia a tornar seus trabalhos abertos a interpretações.
Por ser o belo, entretanto, um conceito mergulhado em subjetivismo, o pragmático artista não tarda a ver suas crenças ruírem perante o inesperado encontro com um garoto que, para Aschenbach, corresponde ao estado ideal da beleza. Ato contínuo, as trocas de olhares são estabelecidas entre os dois, gerando no primeiro uma subserviência platônica que o leva a se digladiar entre as memórias de suas discussões doutrinárias e o atual desejo pederasta experimentado.
Ante o exposto, as nuances homossexuais são abraçadas sem pudor por Visconti¹ como forma de, assim, tornar mais pujante o conflito de Aschenbach acerca de seus rígidos ditames sobre a arte e sobre a vida, daí porque por mais notório que em certas passagens se mostre a conotação sexual da admiração nutrida entre o homem e o adolescente², o contexto estético/artístico é sempre lembrado para, desta feita, não banalizar nem simplificar os dilemas do protagonista.
Ademais, não fosse o bastante a eficiência e o respeito com que manipula tamanha ambigüidade, o diretor italiano ainda aproveita para inserir em Morte em Veneza características deveras peculiares de sua filmografia, tais como: o decadentismo – a exemplo do que fora mostrado em Vagas Estrelas da Ursa (Itália, 1966) – e a capacidade de abordagem de um roteiro de traços intimistas em meio a uma ambientação épica – tal como feito em O Leopardo (Itália, 1963).
Por fim, uma vez que se trata da adaptação cinematográfica de uma novela do alemão Thomas Mann³, inspirada, por sua vez, na personalidade do compositor austríaco Gustav Mahler, Visconti utiliza a 3ª e a 5ª Sinfonias do compositor como símbolos das emoções vividas por Gustav von Aschenbach, razão pela qual o cineasta não raro dispensa diálogos em benefício da trilha sonora que associada a magnífica interpretação de Dirk Bogarde retratam em imagens um martírio cuja natureza, conforme o estímulo de T. Adorno, cabe a você decidir.
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1.  A escalação de Dirk Bogarde para o papel principal do longa-metragem também colaborou para aumentar a polêmica sobre o teor homossexual da obra dado o fato de o ator ser gay.
2.  Neste sentido, o próprio Thomas Mann teria passado por experiência semelhante àquela vivida pelo protagonista de sua novela, senão vejamos:Objeto de desejo de um escritor no livro – e de um compositor no filme -, Tadzio, descobriu-se, teria realmente existido e inspirado Mann, que tinha pendores homossexuais. O seu nome real seria Wladyslaw Moes, de origem polonesa, e ele teria estado em Veneza, de fato, no início do século, na mesma época em que Mann visitou o local. Moes leu o romance e identificou várias passagens com situações vividas por ele durante a viagem – inclusive a saída de sua família da cidade em virtude do surto de cólera. A história foi confirmada pelo tradutor de Mann para o polonês, Andrej Doegowski, na revista Twen(FONTE: http://www.screamyell.com.br/secoes/morteemveneza.htm).
3. Além do romance original, Luchino Visconti também se inspirou em outros trabalhos para compor Morte em Veneza. Assim, “Além de se inspirar nos diálogos entre os compositores Mahler e Schoenberg para compor Aschenbach, o pensamento dos filósofos Friedrich Nietzsche e Arthur Schopenhauer são outras referências na discussão estética desenvolvida no correr da história”  (Fonte: Bravo! 100 Filmes Essenciais. 3ª Ed. São Paulo: Abril, 2009. p. 77).

COTAÇÃO۞۞۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: Morte a Venezia
Direção e Produção: Luchino Visconti
Roteiro: Nicola Badalucco e Luchino Visconti, baseado em novela de Thomas Mann
Elenco: Silvana Mangano (Tadzio's mother) Dirk Bogarde (Gustav von Aschenbach) Carole André (Carole Andre) Marisa Berenson (Frau von Aschenbach) Antonio Appicella (Vagrant)Luigi Battaglia (Scapegrace)Eva Axén (Tadzio's oldest sister) Mark Burns (Alfred)Sergio Garfagnoli (Jaschu, Polish youth)
Fotografia: Pasqualino De Santis
Figurino: Piero Tosi
Direção de Arte: Ferdinando Scarfiotti
Edição: Ruggero Mastroianni
País de Origem: Itália
Duração: 128 minutos
Curiosidade: “É irônico, mas na vida real, o destruído mesmo pela beleza de Tadzio foi seu intérprete, o menino sueco Bjorn Andrésen, que tinha só 14 anos quando fez o filme que o transformou em objeto de desejo no mundo inteiro. Quando Visconti o escolheu ele estudava música, morava com o padrasto e tinha, naturalmente, expectativas muito mais modestas na vida.  Depois de Morte em Veneza tentou seguir a carreira de ator, lançou-se como cantor, mas não teve nenhum sucesso: havia-se tornado prisioneiro de Tadzio. (...) Bjorn conta que não importava o que ele quisesse mostrar: todas as platéias só esperavam e queriam ver "o menino mais bonito do mundo", que Visconti havia imortalizado (...) Bjorn não tem boas lembranças daquela época, muito menos do filme.  Está certo de que teria sido mais feliz se não o tivesse feito, e confessa que se sentiu traído por Visconti, porque filmou sem ter nenhuma noção da temática homossexual de Morte em Veneza, que o perturbou a ponto de interferir em sua sexualidade” (FONTE: http://gloriafperez.blogspot.com/2007/12/morte-em-veneza-o-drama-na-vida-real.html).

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