EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 14 de março de 2012

Billi Pig

    Uma Sucessão de Equívocos

                Billi Pig (Brasil, 2011) é a prova de que a produção cinematográfica brasileira ainda não conseguiu se desvincular por completo da chanchada. Nitidamente inspirada no gênero, a comédia de José Eduardo Belmonte derrapa ao não imprimir qualquer vestígio de contemporaneidade a sua estética, arriscando-se, desta feita, na aposta de que as platéias de hoje terão o mesmo senso de humor e gosto daquelas dos anos 40 e 50.
                Neste sentido, é possível hoje compreender e até admirar os filmes feitos naquele período desde que feita uma óbvia contextualização histórica, o que, por conseguinte, impede o aceite de um mero subproduto da chanchada em pleno século XXI, isso porque ao trazer avanços seja na linguagem seja no aparato tecnológico¹, o tempo, a grosso modo e ignorando a ressalva anteriormente feita, tornou constrangedor e sem graça aquilo que não era ontem.
                É de se louvar, contudo, o esmero demonstrado pelo elenco que em instante algum apela para o piloto automático - graças as interpretações de Milton Gonçalves e Selton Mello, é possível por alguns segundos experimentar risos de canto de boca. Ocorre que os atores logram breves êxitos em momentos individuais e isolados que não sustentam o conjunto de um trabalho ineficiente quanto ao teor cômico e quanto ao tratamento de suas tramas paralelas, aspecto último esse que se deve, sobretudo, a um roteiro mais do que furado porque repleto de situações inverossímeis e soluções visuais fáceis e despreocupadas com a continuidade.
                A partir de um humor a moda Zorra Total, Billi Pig funciona não como uma homenagem a chanchada, mas sim, repita-se, como mais um de seus subprodutos ao estilo Xuxa de fazer filme, eis que o que mais importa aqui é a aparição de artistas globais e músicos na atualidade queridos pelas massas.
               Menos mal que Belmonte parece ter consciência do desastre cometido e, ao término, concede um consolo aos espectadores inserindo nos créditos finais erros de gravação que, sem titubear, representam o que de melhor o longa-metragem oferece, bem como a real essência do projeto: uma sucessão de equívocos.
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1. Aliás, a tecnologia presta aqui um desserviço ao cinema brasileiro ao permitir a criação daquele que talvez seja o pior personagem já surgido em nossas obras, qual seja o tal porco que fala de nome Billi.


COTAÇÃO: ۞

Ficha Técnica
Direção: José Eduardo Belmonte
Roteiro: José Eduardo Belmonte, Ronaldo D'Oxum
Elenco:Zezé Barbosa, Otávio Muller, Sandra Pêra, Cássia Kiss, Milton Gonçalves, Preta Gil, Grazi Massafera, Selton Mello, Aimée Espinosa
Fotografia: André Lavenére
Estreia: 2 de Março de 2012
Duração: 98 min.

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