EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 18 de março de 2012

L'Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância

      Possibilidades Ambivalentes

        L'Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância (França, 2011) consegue um feito interessante: transitar entre extremos drasticamente opostos. Bruto e também elegante; cru e ao mesmo tempo poético; deprimente, mas romântico; sensual, porém, bizarro. Ambivalente, o longa-metragem de Bertrand Bonello narra o cotidiano de prostitutas em um bordel na Paris da virada do século XIX para XX para, adiante, discorrer sobre mudanças de comportamentos e de parâmetros concernentes àquilo que a sociedade da época passara a entender como tolerável em seu meio.
       Neste passo, considerando que atemporais são as agruras da profissão e a condição de pária assumida por tais mulheres, Bonello ressalva que hoje - ao invés do abrigo escravocrata de gerenciadores de luxuosas casas de encontro - as ruas, via de regra, são os atuais cenários do exercício da prostituição.
             Não obstante esse seja um relevante aspecto do roteiro, o que, entretanto, soa mais caro a Bonello é a abordagem humana e, portanto, jamais caricata do grupo de mulheres que por justificativas diversas tem de se submeter ao mercado do sexo. Assim, dentre muitas outras possibilidades sugeridas, vemos exemplos de quem começou a se prostituir no afã de esgotar dívidas pré-existentes e de quem optou por tal profissão no intuito de alcançar uma independência financeira que nada tem a ver com sobrevivência. São escolhas particulares sobre as quais nenhum juízo de valor é aplicado, afinal, a intenção é compreender não os motivos, mas as conseqüências emocionais geradas a partir de uma atividade tão exploratória.
            Com efeito, alguns podem ver clichês nos romances frustrados e imaginados pelas prostitutas, possibilidade essa que, embora não inédita, se mostra, na verdade, imprescindível ao processo de construção das farsas, das atuações teatrais que soterram a amargura da realidade em nome de uma felicidade fingida, porém apta a lograr a satisfação da clientela. Neste contexto, como forma de melhor ilustrar tal requisito prático da profissão, Bonello se apropria da obra O Homem que Ri de Victor Hugo e apresenta uma versão feminina do personagem na figura da mulher de programa cujo rosto fora desfigurado pela bestialidade de um cliente. Sua face monstruosa representa, desta feita, tanto o infindável sorriso mentiroso de suas colegas como também a brutalidade envolta na violação de corpo e mente característica da profissão.
             Não bastasse a forma exitosa com que torna factíveis os sentimentos descritos no roteiro, o filme de Bonello também se revela magnífico enquanto técnica seja em virtude das requintadas direções de arte e de fotografia, seja em decorrência do competente trabalho de edição, seja por conta do estupendo elenco feminino, seja, por fim, em razão da fascinante trilha musical cujas canções, apesar de estranhas ao período histórico retratado, proporcionam uma acachapante carga dramática - tal qual o modus operandi de Rainer Werner Fassbinder em As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (Alemanha, 1972).
            Para quem ainda não viu, eis, enfim, um filme imperdível.

COTAÇÃO: ۞۞۞۞۞

FICHA TÉCNICA
Título original: L'Apollonide - Souvenirs de la Maison Close
Direção e Roteiro: Bertrand Bonello
Produção: Bertrand Bonello, Kristina Larsen
Elenco: Hafsia Herzi, Adele Haenel, Alice Barnole, Noémie Lvovsky, Jasmine Trinca,Céline Sallette, Iliana Zabeth
Duração: 122 min.

2 comentários:

  1. eu ando estudando bastante do cinema francês, mas não conheço esse, vou procurar.

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  2. Muita expectativa se criou acerca deste filme por aqui (Recife), ao menos para mim e outras pessoas, em virtude de problemas técnicos que por duas vezes inviabilizaram sua exibição no cinema cult da terrinha. Enfim este foi sanado e tive o privilégio de contempla-lo na tela grande.

    Sem dúvida trata-se dum filme de qualidade, bonito, mas não o considero imperdível e não vejo tais ambivalências apontadas neste texto. Ao contrário, me parece um filme bonito, elegante, nunca bizarro ou agressivo e mesmo bem menos sensual do que eu imaginava pelo que o belo (e atraente) cartaz comunica.

    Pelo visto só farei minha resenha do filme quando o puder rever (postei apenas um texto sobre minha expectativa, a qual se frustrou, não sendo isso necessariamente negativo).

    Em suma, considero-o um bom filme, que merece ser visto, mas que não me marcou de forma especial.

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