EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 29 de março de 2012

Pina

              Documento Não. Tributo Sim.
 
            A elegância com que o documentário Pina (Alemanha, 2011) se materializa na tela gera uma inquietação: será a qualidade da obra fruto exclusivo das geniais criações de Pina Bausch ou, pelo contrário, será o filme uma demonstração cabal do talento de Wim Wenders em mesclar linguagens aparentemente distantes uma da outra? Por certo, a resposta não exclui nenhuma das possibilidades, visto que os números de dança impressionam seja pela estética teatral seja pela forma como foram decupados  e fotografados nos palcos e nas ruas.
           Isto posto, em tendo percebido que a história do ser homenageado é escrita através da arte e não de aspectos cronológicos e/ou didáticos sobre sua trajetória pessoal/profissional, Wenders afasta o longa-metragem das convenções clássicas do gênero¹ para, em contrapartida, torná-lo um tributo ao invés de um documento.
           Uma vez que apela para a emoção e não para tecnicismos, Pina se revela acessível a todos que se permitam envolver por movimentos e gestos que tocam os sentidos sem necessariamente clamar por racionalização. Em sua versatilidade, Wenders – tal como a própria Pina – quer apenas que vejamos, sintamos, admiremos e, se for caso, dancemos.
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1.    Wenders diversifica uma técnica cara ao documentário, qual seja a entrevista, isso porque a captação da fala não ocorre simultaneamente a imagem. Talvez por saber que a presença da câmera influencia comportamentos, o cineasta prefere gravar de forma isolada os depoimentos para depois utilizá-los como narrações over de imagens dos rostos de seus interlocutores que calados, mas com olhares cúmplices, passam a sensação de compartilhamento não de suas falas mas sim de seus pensamentos.


COTAÇÃO: ۞۞۞۞
Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Wim Wenders
Produção: Chris Bolzli, Claudie Ossard, Gian-Piero Ringel, Wim Wenders
Elenco: Pina Bausch Ditta Jasjfi Regina Advento Ales Cucek Ruth Amarante Dominique Mercy Damiano Ottavio Bigi Andrey Berezin Rainer Behr Jorge Puerta Daphnis Kokkinos Bénédicte BilletCristiana Morganti Fabien Prioville Jean-Laurent SasportesAzusa Seyama Julie Shanahan Michael Strecker Fernando Suels Mechthild Grossmann Malou Airaudo Nazareth Panadero Aida Vainieri
Estreia Mundial: 24.02.2011
Estreia no Brasil: 23.03.2012
Duração: 106 min.

2 comentários:

  1. Ótimo texto, Dario... adorei! XD

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  2. De fato, uma coisa não exclui a outra, haja vista a incrível capacidade de alguns cineastas (e não só destes) em transformar uma excelente matéria-prima em porcaria. E, por outro lado, há quem, partindo de pobre matéria-prima, opere milagres.

    Não assisti "Pina" ainda, mas pretendo fazê-lo amanhã (infelizmente não em 3d). Conheci o trabalhor de Wenders recentemente: o tbm "documentário" sobre o Buena Vista não me pareceu artistico no sentido estético-impressionista, mas "Asas do desejo" sim, de modo que suponho "Pina" como uma espécie de meio-termo entre ambos.

    Parabéns por conseguir dizer tanto em tão poucas linhas.

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