Looper – Assassinos do Futuro



Imersão Prejudicada

Cinema é a arte da imersão. Não a toa sua materialização, enquanto projeção, se constitui de uma sala escura e de uma tela grande, elementos esses que servem para fazer com que a plateia esqueça o que deixou do lado de fora do recinto de exibição e ignore que perante seus olhos quem aparece são atores encenando o que fora escrito em um roteiro¹. Desta feita, sobretudo quando estruturado na forma de entretenimento, o cinema busca concentrar e embalar o público por meio da narrativa e da montagem invisível ensinada pela indústria norte-americana a partir de D.W.Griffith.
Dito isso, outra observação há de ser feita: O Curioso Caso de Benjamin Button (EUA, 2008), independentemente de seus diversos outros méritos cinematográficos, estabeleceu um parâmetro em termos de aproveitamento da computação gráfica dentro de uma história. Explique-se: a partir do filme de David Fincher, constatou-se que hoje não mais é necessário que um personagem visto em diferentes fases de sua vida seja interpretado por mais de um ator, isso porque o longa-metragem indicou que os atuais efeitos especiais permitem que uma mesma pessoa envelheça e rejuvenesça conforme as exigências da trama, tornando, assim, defasada a estratégia de dividir o papel entre dois atores.
Feitas essas duas considerações, há de se concluir que Looper – Assassinos do Futuro (EUA, 2012) falha no crucial convencimento de que Joseph Gordon-Levitt e Bruce Willis correspondem a versões em idades diferentes de um ser humano. Dentro deste contexto, não bastasse a já citada lembrança dos avanços obtidos a partir de Benjamin Button, a carregada maquiagem de Gordon-Levitt ao invés de torná-lo parecido com Willis, deixa o ator com uma aparência tão estranha que a atenção do espectador acaba sendo desviada nesse sentido².
Some-se a esse grave erro técnico outro fator incoveniente: o roteiro de vai vem no tempo criado por Rian Johnson revela brechas e incongruências quando esmiuçado a fundo, demérito que, aliás, poderia ser contornado caso alguns questionamentos filosóficos envolvendo a disparidade de interesses entre as facetas do presente e do futuro de um mesmo assassino não fossem relegadas a segundo plano em benefício de uma tola caça a um vilão dotado de telecinese³, que acaba estendendo a duração do longa-metragem para além do necessário. Com efeito, Blade Runner – O Caçador de Andróides (EUA, 1982) já havia demonstrado que para ser excelente e cool uma ficção científica não requer obrigatoriamente algozes super poderosos, mas sim questionamentos incômodos e dúvidas nem sempre sanadas. Ok, Looper não é nem de longe exemplo de aventura desenfreada, mas, de qualquer forma, encaixa-se num formato em que a ação poderia até ser reduzida a zero em benefício do enredo.
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1. Nada ilustra melhor essa ideia do que a aflição experimentada por plateias de 1895, ocasião em que pessoas se jogaram ao chão temendo que o trem exibido no primeiro filme projetado pelos irmãos Lumière, saltasse da tela e lhes atingisse
2.Seria o caso de um orçamento apertado ou de produtores alheios as exigências do novo publico?
3. Para que nenhuma injustiça seja cometida, cabe destacar, neste diapasão, a coragem do filme em ser politicamente incorreto e escalar Bruce Willis como um impiedoso matador de criancinhas.

Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Rian Johnson
Produção: Ram Bergman, James D. Stern
Elenco: Bruce Willis, Joseph Gordon-Levitt, Emily Blunt, Jeff Daniels, Piper Perabo, Paul Dano, Garret Dillahunt, Pierce Gagnon, Tracie Thoms, Han Soto
Fotografia: Steve Yedlin                 Trilha Sonora: Nathan Johnson
Estreia no Brasil: 28.09.2012        Estreia Mundial: 27.09.2012
Duração: 118 min.

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