EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 30 de outubro de 2012

The Love We Make



E Paul Acerta Novamente...

A carreira musical de Paul McCartney jamais foi nem poderá ser repudiada. Suas inserções no campo audiovisual, porém, foram comumente achincalhadas graças a baixa qualidade do material produzido, daí serem, não raro, compreendidas como reflexos de um ego inflado momentaneamente incapaz de discernir entre ideias maravilhosas e péssimas.  
Neste sentido, filmes como Magical Mistery Tour (Reino Unido, 1967) e Give My Regards to Broad Street (Reino Unido, 1984) são rotineiramente citados como os mais toscos projetos capitaneados pelo músico. Exceção em meio a esse cenário, Let It Be¹ (Reino Unido, 1970) até hoje é o documentário definitivo sobre os Beatles, graças a crueza com que não se eximiu de mostrar as feridas abertas da banda, daí ser possível concluir que quando não interessado em manter controle total sobre as imagens captadas, ficando, ao contrário, deliberadamente exposto ao perigo representado por situações inusitadas, Paul alcança resultados mais satisfatórios e importantes, teoria essa reforçada por The Love We Make (EUA, 2011), longa-metragem fruto da amizade do roqueiro com o poderoso Harvey Miramax Weinstein.
Idealizado como o registro do envolvimento de McCartney com o mega show beneficente realizado em Nova York pouco mais de dois meses após os atentados terroristas de onze de setembro, o documentário, na verdade, vai além dessa pretensão uma vez que também permite ao espectador testemunhar alguns dos primeiros passos do ex-beatle ao lado da banda que hoje o acompanha há mais de dez anos, bem como o contínuo assédio recebido de anônimos e famosos, o que inclui figuras do quilate de Ozzy Osbourne, James Taylor, Billy Joel e Sheryl Crow agindo com total reverência, num misto de tietagem e respeito que os torna fãs comuns, distantes anos luz dos grandes artistas que também são.
Em meio a tamanha popularidade, cabe ao baixista exercer com desenvoltura e naturalidade o papel de bom moço por décadas assumido, postura, entretanto, que não lhe deixa imune a muitos momentos constrangedores sabiamente mantidos na edição final de The Love We Make. Graças a essa abertura para as surpresas do dia a dia, ressalte-se, a produção não só torna Paul ainda mais humano como também reserva cenas saborosíssimas, cujas descrições são descartadas em benefício do ineditismo.
Com efeito, o documentário dá uma mostra do que representa estar na pele daquele que talvez seja o artista vivo mais amado do planeta. Ciente do impacto causado por sua obra e, consequentemente, pelos atos por ele praticados, Paul inteligentemente capta o amor que lhe é dedicado mundo afora e em seguida o repassa, em termos práticos, a milhares de pessoas necessitadas. Um exemplo a ser copiado.
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1.     Leia mais sobre Let It Be em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/09/let-it-be.html.

Ficha Técnica
Direção: Bradley Kaplan e Albert Maysles
Produção: Bradley Kaplan
Produção Executiva: Paul McCartney
Edição: Ian Markiewicz
Duração: 90 min.

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