EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis



Colossal e Equivocado

Tal como o western, o musical é um gênero americano por excelência, o que não quer dizer, entretanto, que Hollywood já tenha conseguido engendrar uma fórmula infalível para seu sucesso, isso porque a produção musical comumente se configura ou como um acerto absoluto – vide os casos de West Side Story, My Fair Lady, Singin’ in the Rain e Hair – ou como um inconteste equívoco, categoria essa na qual se enquadra Os Miseráveis (EUA, 2012).
Todavia, para a análise não soar injusta, uma coisa há de ser logo reconhecida: a adaptação dirigida por Tom Hooper é um colosso em quesitos técnicos como fotografia, direção de arte e figurino, o que, por óbvio, gera a seguinte pergunta: quais então são os problemas do longa-metragem? Vejamos:
Considerando que o produto fílmico precisa a todo instante contar com a tolerância do público perante figuras serelepes que, ao invés de falar, cantam e, não raro, dançam, criar um musical para o cinema, cuja linguagem tanto busca funcionar como expressão da realidade, é uma tarefa árdua. Por conta dessa peculiaridade, as narrativas desse gênero precisam ser fluídas e hábeis o bastante para evitar que a experiência do espectador se torne enfadonha, requisito esse certamente não preenchido por Os Miseráveis.
Dito isso, ao longo de suas quase três horas de duração o filme se revela massacrante a quem o assiste, tendo em vista que seu roteiro fraqueja justamente no processo de articulação da trama e de distribuição da relevância entre os personagens. Assim, quem mais sofre desvantagem, nesse sentido, é o protagonista Jean Valjean que praticamente deixa de ser o polo central ao redor do qual gravitam os demais seres criados por Victor Hugo – tal como visto na outra e ótima versão cinematográfica homônima capitaneada, em 1995, por Claude Lelouch e estrelada por Jean-Paul Belmondo – daí que, não a toa, é possível perceber que o filme clama por mais tempo de tela para um surpreendente Hugh Jackman e, sobretudo, para a excelente Anne Hathaway, afinal, são eles os responsáveis pelos escassos momentos interessantes do longa-metragem, na medida em que driblam o excesso e, desse modo, avançam para muito além da superfície em seus papeis, êxito esse não repetido, por exemplo, pelos casais Eddie Redmayne e Amanda Seyfried – que colaboram para elevar a enésima potência a pieguice presente em muitos momentos da produção – e Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter – a quem são relegadas as partes mais constrangedoras da obra.
Um colosso técnico pontuado pelos arrebatadores desempenhos de Hugh Jackman e Anne Hathaway, mas que também se mostra piegas, constrangedor e enfadonho. Assim é Os Miseráveis, um título que não teme o excesso e que, por isso, tanto divide as opiniões a seu respeito.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Les Miserables
Direção: Tom Hooper
Produção: Eric Fellner, Debra Hayward, Cameron Mackintosh
Roteiro: William Nicholson, baseado na obra de Victor Hugo
Elenco: Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Hugh Jackman, Russell Crowe, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Aaron Tveit, Colm Wilkinson, Ella Hunt, George Blagden, Daniel Huttlestone, Bertie Carvel, Isabelle Allen, Frances Ruffelle, Alistair Brammer, Evie Wray, Kerry Ellis, Tim Downie, Killian Donnelly, Alexander Brooks, Fra Fee, Sophie Ellis, Jean-Marc Chautems, Jonny Purchase, Lily Laight, Linzi Hateley, Scott Stevenson, Nathanjohn Carter, Dick Ward, Nancy Sullivan, Gabriel Vick, Catherine Woolston, Jaygann Ayeh, Paul Leonard, Gino Picciano, Olivia Rose Aaron, Jackie Marks, Julia Worsley, AlisonTennant, Josh Wichard, Sara Pelosi, Henry Monk, Adebayo Bolaji, Sammy Harris, Adam Nowell, Rosa O'Reilly, Stevee Davies, Robyn North, James Charlton, Alice Fearn, Kelly-Anne Gower, Iwan Lewis, Jos Slovick, Richard Dalton, Matt Harrop, Mary Cormack, Gary Bland, Adam Pearce
Fotografia: Danny Cohen               Trilha Sonora: Claude-Michel Schönberg
Estreia no Brasil: 01.02. 2013        Estreia Mundial: 07.12.2012
Duração: 157 min.

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