EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Um Verão Escaldante



Uma Fria

Escaldante é algo que o filme Um Verão Escaldante (Itália/ França/ Suíça, 2011) definitivamente não é. Fria, a direção de Philippe Garrel mantém-se deliberadamente distante dos personagens, evitando, assim, qualquer relação mais íntima com estes, o que acaba fazendo as insatisfações e incertezas dos casais que protagonizam a trama soarem vazias, quando não descabidas. Não à toa, portanto, o ar blasé de Louis Garrel se confunde com a própria apatia da narrativa que, embora manifeste certa preocupação em criar um arco dramático coerente, resulta incompleta porque não comprometida com as emoções mencionadas¹-².
Não bastassem os problemas apontados, o roteiro insiste em um viés político que nada acrescenta porque calcado em ideias que soam espantosamente ultrapassadas. Neste diapasão, o antigo governo de Nicolas Sarkozy, na França, acarreta para alguns personagens desejos de ‘revolução’ como se o mundo ainda pudesse ser didatica e geograficamente dividido em dois lados: o bom – ingenuamente compreendido como a fração comunista da Terra – e o mal – visualizado na figura dos capitalistas ou, melhor dizendo, dos execráveis ‘burgueses’.
Por último, um desfecho por demais exagerado faz com que a experiência de assistir a obra se caracterize como um desperdício de tempo e o filme em si como um exemplo de emprego errôneo de dinheiro, ideias e talentos – afinal, além de M. Bellucci o elenco ainda conta com a ótima Céline Sallette, vista recentemente no excelente L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância.
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1.Segundo Rogério de Moraes: “Cria-se aqui uma grande barreira entre filme e espectador, para quem resta a observação à distância. É dessa mesma forma que o diretor nos mantém em relação a seu filme, criando um vácuo entre sentimentos e público, impedindo qualquer empatia com os dramas retratados. Um efeito proposital, pensado, mas que aliado a uma trama de conflitos escassos recai na monotonia, tornando-se irregular. [...]O filme de Philippe Garret propõe um exercício de observar sem sentir. E, de fato, o sentimento nunca chega até nós. Sem experimentá-lo, também nos afastamos e acabamos por ter uma experiência vazia. O mesmo vácuo emocional que os personagens tanto temem, mas nem sempre evitam” (FONTE: http://www.cineclick.com.br/criticas/ficha/filme/um-verao-escaldante/id/2960).
2. Dentro deste contexto, por mais incrível que possa parecer, até mesmo a presença de uma já madura Monica Bellucci não serve para, conforme em outros longas metragens estrelados pela atriz, agregar calor ao enredo.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Un été Brûlant
Direção: Philippe Garrel
Produção: Edouard Weil
Roteiro: Marc Cholodenko, Caroline Deruas-Garrel, Philippe Garrel
Elenco: Monica Bellucci, Louis Garrel, Céline Sallette, Jérôme Robart, Vladislav Galard, Vincent Macaigne, Maurice Garrel
Fotografia: Willy Kurant                          Trilha Sonora: John Cale
Duração: 95 min.

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