EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Som ao Redor



Estado Violência

Intrigante é um adjetivo que bem se adequa a O Som ao Redor (Brasil, 2012). Em sua estreia na direção de longas Kleber Mendonça Filho assina uma história que não se encaixa no formato clássico da narrativa fílmica, tendo em vista, sobretudo, a importância dada ao tempo morto em sua mise-en-scène, o que não quer dizer, porém, que o filme se preste a assumir uma toada contemplativa e/ou silenciosa nos moldes firmados por Antonioni e Bergman, por exemplo.
Na verdade O Som ao Redor se vale de um caprichado trabalho de montagem para arquitetar num crescendo a sensação de que uma tragédia está prestes a ocorrer, o que, frise-se, visa não criar espaço para um clímax cinematográfico – até porque seu desfecho, tal qual a vida real, é deliberadamente anticlimático – e sim lembrar o público da ininterrupta sensação de insegurança experimentada pela classe média brasileira para a qual a obra tanto volta seu olhar. Por seu turno, como o próprio título sugere, a banda sonora possui papel de destaque na medida em que, através de ruídos diversos, invade os lares e cotidianos dos personagens como que a ‘ilustrar’ o medo que não mais é barrado pelas grades e portões das casas e prédios.
Uma vez esclarecido que a distinção de classes de nossa sociedade é fruto de um processo opressor de colonização, o drama direciona seu foco, como já dito, sobre a tão pouco filmada classe média e o faz de uma maneira singular porque praticamente palpável. Neste sentido, em locações pouco adulteradas pela direção de arte, Mendonça Filho espreita de modo quase documental o modo de falar e interagir das pessoas entre seus pares e subordinados e é justamente por abordar de maneira tão franca uma parcela da nação no que tange a instabilidade de seus relacionamentos, seu habitat, comportamento e temores que a realização soa tão cúmplice¹ e também tão incômoda, afinal, como qualquer brasileiro bem sabe, estamos constantemente a mercê de inimagináveis infortúnios advindos do Estado violência no qual vivemos.
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1.  Em compreensão semelhante Roberto Guerra afirma: “O filme mantém-se sustentado em pequenos acontecimentos mundanos, que se revelam ainda mais inquietantes do que aqueles vistos numa trama comum movida à ação e reação. A vida desses personagens, sua atitudes e também apatias e tédios diante das próprias existências são os responsáveis pela dinâmica asfixiante deste filme, por que não dizer, de horror. E o assustador e temerário aqui está na familiaridade que O Som ao Redor desperta na gente” (FONTE: http://www.cineclick.com.br/criticas/ficha/filme/o-som-ao-redor/id/3112. Acesso em 21.02.12).

FICHA TÉCNICA

Direção e Roteiro: Kleber Mendonça Filho

Produção: Emilie Lesclaux

Elenco: Irma Brown, Sebastião Formiga, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, W. J. Solha, Lula Terra, Irandhir Santos, Waldemar José Solha, Yuri Holanda, Clébia Souza, Maria Luiza Tavares

Fotografia: Pedro Sotero                          Trilha Sonora: DJ Dolores

Estreia: 04.01.13

Duração: 131 min.

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