EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Miss Violence / As Virgens Suicidas



Casos de Família


Tanto Miss Violence (Grécia, 2013) quanto As Virgens Suicidas (EUA, 1999) tem como pontapé inicial o suicídio de garotas recém entradas na adolescência, transitando, portanto, seus acontecimentos seguintes ao redor de tais mortes. Com efeito, em ambos os títulos a fotografia e a direção de arte utilizam tons pastéis para sugerir o falso, qual seja um mundo cor de rosa cujas aparências não resistem por muito tempo. E é na gradual revelação do convívio familiar que se encontram as razões para atos tão drásticos, ambientes esses que, em virtude de suas peculiaridades, distinguem uma obra da outra.
Neste passo, Miss Violence  funciona como uma espécie de versão hardcore de  As Virgens Suicidas , pois, enquanto o trabalho de Sofia Coppola expõe o drama de meninas que acabam, literalmente, enclausuradas face o comportamento superprotetor de seus pais¹, a produção grega aponta uma escala hierárquica na qual cada parente aproveita para oprimir e explorar aquele que está logo abaixo, relação essa cujo elo reside na passividade perante o principal e maior opressor: o chefe da família.
Se, por um lado, o trabalho de Coppola fica guardado na memória por sua beleza triste e pelas lembranças melancólicas da adolescência que desperta, Miss Violence, por seu turno, se impõe como uma das mais incômodas e angustiantes experiências cinematográficas dos últimos tempos dada a sucessão de depravações mostrada² com total plausibilidade. Sufocante, o filme vai a cada minuto fazendo o espectador sentir o estômago mais e mais embrulhado numa toada que lembra as realizações de Gaspar Noé, ou seja, cru e sem espaço para alívio.
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1.     Vale destacar, neste diapasão, as iluminadas atuações de James Woods e Kirsten dunst.
2.     Dentro deste contexto, há quem também visualize a semelhança de Miss Violence com o nacional Os Sete Gatinhos.

FICHA TÉCNICA – MISS VIOLENCE

Direção: Alexandros Avranas
Roteiro: Alexandros Avranas, Kostas Peroulis
Elenco: Anna Koutsaftiki, Chloe Bolota, Christos Loulis, Constantinos Athanasiades, Giorgos Gerontidakis-Sempetadelis, Kostas Antalopoulos, Maria Kallimani, Martha Bouziouri, Minas Hatzisavvas, Nikos Hatzopoulos, Rafika Chawishe, Stefanos Kosmidis, Vasilis Kuhkalani, Vaso Iatropoulou, Yiota Festa
Produção: Alexandros Avranas, Christos V. Konstantakopoulos, Giorgos Palamidis, Lelia Andronikou, Orpheas Emirzas, Vasilis Chrysanthopoulos
Estreia no Brasil: 25.09.14
Duração: 99 min. 

FICHA TÉCNICA – AS VIRGENS SUICIDAS

Título Original: The Virgin Sucicides
Direção e Roteiro Adaptado: Sofia Coppola
Elenco: Kirsten Dunst, Hayden Christensen, A.J. Cook, Anthony DeSimone, Chelsea Swain, Danny De Vito, Giovanni Ribisi, Hanna Hall, James Woods, Jonathan Tucker, Josh Harnett, Kathleen Turner, Leslie Hayman, Michael Paré, Scott Glenn
Produção: Chris Hanley, Dan Halsted, Francis Ford Coppola, Julie Costanzo
Fotografia: Edward Lachman
Estreia: 21.04.00
Duração: 97 min.

2 comentários:

  1. Eu não sei porque raios eu ainda não assisti Miss Violence.
    Quanto ao filme de Sofia Coppola, na qual sou muito suspeito pra falar - sou fã de tudo que a mulher faz - esse é a sua pequena pérola.

    RunAwards.
    runawards.wordpress.com

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    1. Você tem razão:tudo o que ela fez até o momento é pelo menos ótimo!

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