EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Trash – A Esperança Vem do Lixo



Jus ao Título

No campo da especulação, só uma justificativa parece possível para a ruindade de Trash – A Esperança Vem do Lixo (Reino Unido/Brasil, 2014), qual seja o corte final ter escapado das mãos do diretor Stephen Daldry, afinal, é pouco provável que uma história com tantos furos e situações inverossímeis fosse levada adiante por artistas e produtoras minimamente preocupadas com a qualidade do produto.
Da forma como fora concluída a obra não se decide pela aventura infanto-juvenil ou pelo drama de cunho social. Neste sentido, embora revele nítida influência estética de Cidade de Deus e Tropa de Elite o longa-metragem se mostra artificial quanto as mazelas retratadas, o que é fruto de um estereotipado olhar estrangeiro sobre um Brasil onde a língua inglesa, por exemplo, é falada com fluência pelas pessoas menos prováveis.
Não bastasse apresentar situações absurdas como crianças vivendo sozinhas em áreas subterrâneas e até mesmo num cemitério, o roteiro falha na delineação de seus personagens deixando inócua a motivação do trio de garotos perseguidos pela polícia, além de tornar irrelevante personagens defendidos por talentos, desperdiçados, como Jesuíta Barbosa, Rooney Mara e Martins Sheen - por seu turno, Selton Mello ganha considerável destaque, mas se perde numa atuação tão over quanto o desfecho dado ao tira corrupto por ele vivido.
Trash é um típico caso de co-produção internacional no qual a mistura dos ingredientes dos respectivos países envolvidos desanda de forma grotesca, resultado que atinge até o único ponto positivo do trabalho: a direção de arte. Com efeito, a notável reconstituição de um lixão é arruinada, literalmente, numa sequência em que o cenário é incendiado de modo totalmente anticlimático. Aliás, clímax inexiste em qualquer momento do filme, isso porque tudo que antecede tais pretensos êxtases não funciona.
Eis um filme que faz jus ao título e ao ambiente que retrata.

FICHA TÉCNICA
Direção: Stephen Daldry

Roteiro: Felipe Braga, Richard Curtis
Elenco: André Ramiro, Daniel Zettel, Eduardo Luis, Gabrielle Weinstein, Gisele Fróes, Jesuíta Barbosa, José Dumont, Maria Eduarda, Martin Sheen, Nelson Xavier, Rickson Tevez, Rooney Mara, Selton Mello, Stepan Nercessian, Wagner Moura
Produção: Eric Fellner, Kris Thykier, Tim Bevan
Fotografia: Adriano Goldman
Estreia: 09/10/2014
Duração: 114 min.

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