EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 8 de agosto de 2010

Alice Não Mora Mais Aqui


O Recado que Não Fora Entregue

Certo dia, durante a pré-produção de Alice Não Mora Mais Aqui (EUA, 1974), Ellen Burstyn, estrela do filme, encontrou com Peter Bogdanovich que, ao ouvirr da atriz que Martin Scorce havia sido escalado para a direção, avisou: “Diz para ele não mexer tanto com a câmera”¹.
Burstyn, ainda bem, teve a prudência de não se deixar contaminar pela boçalidade de Bogdanovich – o qual, graças ao sucesso de A Última Sessão de Cinema (The Last Picture Show,1971), passou a se considerar o melhor cineasta americano em exercício – deixando, assim, de entregar ao destinatário aquele infeliz recado.
Infeliz por quê? Porque grande parte da beleza de Alice reside, justamente, nos graciosos movimentos de câmera planejados por Scorcese. A sequência inicial, por exemplo, renderia sozinha uma extensa análise, afinal, a infância da personagem principal é retratada numa alusão aos primeiros minutos de O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, 1939), quando Dorothy, ainda no Kansas, é levada por um furacão.
Dentro deste contexto, a projeção em uma dimensão menor de tela dá o tom cinematográfico desejado por Scorcese, o que é reforçado na paleta avermelhada usada pela fotografia, bem como pelo suntuoso travelling que primeiramente acompanha os passos da jovem Alice para, em seguida, afastar-se, alterando, assim, a profundidade do plano e o tempo da história, ocasião em que o tom clássico do passado cede lugar à modernidade das músicas, dos figurinos e dos cenários do tempo presente, retrato esse para o qual o espectador é aproximado por meio daquele mesmo travelling que agora faz as vezes de um zoom-in.
Se Scorcese, como dito, estava nervoso por Alice ser sua primeira obra bancada por um estúdio, tal insegurança em momento algum é percebida. Aliás, mais parece, que o cineasta se sentia deveras confiante, dado o desfile de técnicas de movimento que, além de colaborarem com a narrativa, também deram ao longa-metragem um ar cru e verdadeiro, como é possível perceber no caso das várias cenas em que é nítido o uso de câmera na mão.
Entretanto, não foram apenas os aspectos técnicos das tomadas que tomaram a atenção do diretor, mas também a condução do elenco. Neste passo, a garçonete boca suja de Diane Ladd, o galanteador lunático de Harvey Keitel, a jovem ladra de Jodie Foster (em momento pré-Taxi Driver), o filho falastrão de Alfred Lutter III, o cowboy boa praça de Kris Kristofferson e a Alice ora amargurada ora radiante de Ellen Burstyn são figuras, sem exceção,  extremamente críveis e magistralmente interpretadas.
Desse modo, o cineasta provou ao mundo que seu talento ia além de Caminhos Perigosos (1971), mostrando, portanto, ser um homem sensível e não atado ao rótulo dos filmes de gangsteres, ao passo que Peter Bogdanovich não conseguiu, por outro lado, manter o sucesso por muito tempo, seja pela exímia capacidade em fazer escolhas erradas, seja pela arrogância de seu comportamento.
Por isso tudo, salve Scorcese!
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1.    Fonte: BISKIND, Peter. Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’roll Salvou Hollywood. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009. p. 264.

COTAÇÃO: ****

Ficha Técnica
Título Original: Alice Doesn't Live Here Anymore
Direção: Martin Scorsese
Música: Richard LaSalle
Fotografia: Kent L. Wakeford
Desenho de Produção: Toby Carr Rafelson
Edição: Marcia Lucas
Elenco: Vic Tayback (Mel)Murray Moston (Jacobs), Alfred Lutter III, Kris Kristofferson (David) Harvey Keitel (Ben)Billy Green Bush (Donald), Martin Brinton (Lenny)Ellen Burstyn (Alice Hyatt)Valerie Curtin (Vera)Laura Dern (Girl Eating Ice Cream Cone)Jodie Foster (Audrey)Lelia Goldoni (Bea)Diane Ladd (Flo) Lane Bradbury (Rita)Mia Bendixsen (Alice, Age 8)Harry Northup (Jim's Bartender)
Estreia: 30 de Maio de 1974
Duração: 112 minutos
Curiosidades:
Conforme acusam os sobrenomes, a diretora de arte Toby Rafelson e a montadora Marcia Lucas, eram, respectivamente, mulheres dos cineastas Bob Rafelson e George Lucas.
Durante as filmagens, Martin Scorcese recebeu no set a visita de Robert De Niro que na ocasião deu ao diretor um exemplar de um livro que acabara de ler intitulado Touro Indomável.

Um comentário:

  1. "Alice Não Mora Mais Aqui" é um filme apaixonante... incrível como Scorsese sempre nos faz ter a maior empatia por personagens emocionalmente perturbados... amo esse filme!

    Por isso tudo, salve Scorcese!²

    XD

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