EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 23 de agosto de 2010

400 Contra 1 - Uma História do Crime Organizado


Atrapalhada Humanização

400 contra 1 - Uma História do Crime Organizado (Brasil, 2010) engana com facilidade quem assiste seus cinco primeiros minutos; afinal, uma trilha sonora cool (ao estilo Shaft) e um correto trabalho de reconstituição de época levam a crer que coisa boa virá pela frente. Mas, eis que o caldo entorna e uma sucessão de falhas enche a tela e a paciência do espectador, tornando deveras enfadonha a experiência de assistir o longa.

Dentro deste contexto, a obra almeja resumir em noventa minutos fatos ocorridos ao longo de quase uma década, o que - apesar de não necessariamente configurar uma missão impossível – acaba funcionando como o grande fator responsável pela ineficiência do filme, dada a opção do diretor Caco Souza em não adotar uma linha narrativa linear, preferindo, ao contrário, valer-se de uma edição caótica, repleta de idas e vindas no tempo e que, assim, não logra êxito em estabelecer uma conexão satisfatória entre as seqüências mostradas.

Tantos trechos soltos de história, ressalte-se, não permitem o desenvolvimento psicológico de qualquer personagem, tornando insípida, desta feita, a exposição de suas motivações, o que, inevitavelmente, concede um ar de inutilidade a certos papeis, como ocorre, por exemplo, com as personagens femininas cujas entradas e saídas de cena ora não se explicam ora não se justificam.

Por conta deste vazio, a produção é enxertada por uma incômoda narração, artifício esse que, ao invés de colaborar com a construção do enredo, prefere partir para a obviedade, assumindo um tom didático que desconfia tanto da inteligência do público quanto da capacidade auto-explicativa das imagens filmadas.

Bagunçado como ficou, 400 contra 1... desperdiça temas ricos como a história do crime em meio as anos de chumbo, bem como a coexistência permeada de preconceitos - e, por isso, nada pacífica – entre presos políticos e bandidos comuns reunidos num mesmo local de encarceramento.

Nesta toada, até mesmo o combate final dos protagonistas para com a polícia – seqüência essa que deveria servir tanto de clímax quanto de explicação ao título do filme – é desprovido de qualquer emoção, eis que extremamente mal encenado e mal montado.

Por um lado talvez seja até bom que a edição de 400... seja tão desequilibrada, pois, da maneira como foi finalizada, a obra não consegue alcançar seu maior objetivo: ultrapassar a fronteira da exposição dos motivos para, ato contínuo, torná-los elementos justificadores da criminalidade.

Hector Babenco, há mais de trinta anos, lidou com temática parecida em Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia (Brasil, 1977), produção essa que se mantém atual não apenas por sua crueza, mas, principalmente, em virtude de seu papel observatório sobre os conchavos tramados entre policiais e criminosos, opção dramática essa que, ao invés de partir em busca da humanização cega dos personagens, deixa para a platéia a função de julgar ou compreender a motivação dos mesmos.

400... afasta-se, portanto, desta tendência, preferindo abraçar uma linguagem televisiva na qual tudo precisa ser muito rápido e mastigado. O problema desta roupagem fast food, quando bem costurada, consiste no fato de não instigar o público a refletir sobre o porquê, mas sim a compreender, a ser solidário com o mesmo, o que, por certo, resulta numa opção narrativa preocupante e até mesmo perigosa.

 

COTAÇÃO: ۞۞



Direção: Caco Souza

Roteiro:Victor Navas, com colaboração de Júlio Ludemir, baseado em livro de William da Silva Lima

Produção:Nélson Duarte

Elenco: Negra Li, Branca Messina, Fabrício Boliveira, Daniel de Oliveira, Lui Mendes, Daniela Escobar

Direção de arte:Bernardo Zortea
Figurino:Beta Abrantes e Carolina Sudati
Edição:Márcio Canella

Duração: 98 min

Estreia: 6 de Agosto de 2010

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