EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A Dama do Lago


Insistente Perspectiva

Contratado para desvendar o desaparecimento de uma mulher, o detetive particular Philip Marlowe vê todas as suas desconfianças sobre a complexidade da missão se confirmarem quando assassinatos envolvendo pessoas ligadas ao caso começam a ocorrer.
Produzido numa época em que os filmes noir já haviam recebido tal nomenclatura com base na definição de seus elementos característicos, A Dama do Lago (EUA, 1947) se diferencia das demais obras do estilo ao adotar uma inovadora e, portanto, ousada captação de imagens em primeira pessoa.
Dessa maneira, por quase toda a duração do filme os olhos do espectador se confundem com os do protagonista, mas, ao contrário do que sugeria o anúncio publicitário lançado à época pela MGM, o espectador não é alçado a condição de personagem, eis que a cada ato findo o detetive surge para dialogar diretamente com a platéia, dando-lhe explicações sobre os fatos e pondo-lhe na devida condição de parte passiva apta a tão somente testemunhar a ótica daquele.
Não obstante o atrevimento estético digno de louvores pelo ineditismo, o ator e diretor Robert Montgomery acaba por se tornar refém de sua técnica, visto que a  predominância do ponto de vista de seu personagem impede maiores arroubos da montagem, por exemplo, prejudicando, assim, a fluidez da obra.
Dentro deste contexto, a perspectiva de filmagem escolhida exige grandes interpretações do elenco graças aos inúmeros closes e planos médios simuladores do raio de visão do detetive que, por sua vez, no intuito de ter presença e personalidade demarcadas resta caracterizado como um homem falastrão e antipático, o que não necessariamente seria um problema desde que representado com o charme que Humprey Bogart com tanta facilidade aplicava a tais papeis – ator esse que, inclusive, interpretou o mesmo Philip Marlowe no anterior À Beira do Abismo (The Big Sleep, EUA, 1946).
Por fim, a insistência em valer-se do olhar do personagem acarreta em A Dama do Lago um desequilíbrio entre a forma e o conteúdo, dada a obsessão do diretor Montgomery em seguir tal caminho do início ao fim. Nesta toada, uma divisão mais flexível entre os pontos de vista poderia tornar o filme menos repetitivo e até, quem sabe, deixar o espectador menos incomodado com a tarefa de servir como cúmplice constante de um ser tão difícil de simpatizar como o detetive Marlowe.

 

COTAÇÃO: ۞۞۞

 

Ficha Técnica

Título Original: Lady in the Lake
Produção: George Haight
Argumento: Steve Fisher, baseado no romance de Raymond Chandler
Elenco: Robert Montgomery (Philip Marlowe), Audrey Totter (Adrienne Fromsett), Lloyd Nolan (DeGarmot,) Tom Tully (Capitõ Fergus K. Kane), Leon Ames (Derace Kingsby), Jayne Meadows (Mildred Haveland), Dick Simmons (Chris Lavery), Morris Ankrum (Eugene Grayson), Kathleen Lockhart (Mrs. Grayson), Ellay Mort (Chrystal Kingsby)
Música Original: David Snell
Fotografia: Paul Vogel
Edição: Gene Ruggiero
Direção de Arte: Cedric Gibbons, E. Preston Ames
Figurino: Irene
Maquiagem: Jack Dawn, Sydney Guilaroff
Efeitos Sonoros: Douglas Shearer
Efeitos Especiais: A. Arnold Gillespie
Estreia: 1947
Duração: 102 minutos
Curiosidades:
“O argumento de A Dama do Lago foi escrito pelo próprio Raymond Chandler, sendo a única vez que o escritor escreveu um argumento cinematográfico. No entanto, a versão que Chandler apresentou, com cerca de 175 páginas, revelou-se impossível de filmar e a MGM teve de contratar Steve Fisher para reescrever o argumento. Chandler insistiu que o seu nome fosse creditado como argumentista, mas após ler a versão de Fisher, recusou ver o seu nome associado ao argumento. A principal causa desta atitude foi a exclusão de uma cena crucial do romance original e a opção de Fisher de apresentar o filme em câmara subjetiva”¹.
A ficha técnica original da produção incluía no elenco a atriz Ellay Mort, como intérprete da personagem, que não surge no filme, Chrystal Kingsby. “A referência é uma brincadeira, já que a fonética do nome é semelhante à frase francesa “elle est mort” (ela está morta)”².
1 – 2. Fonte: http://www.chambel.net/?p=13.

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