EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 30 de novembro de 2010

Abutres

Interessante Fusão de Dois Cinemas

A partir dos anos 2000, produções argentinas e sul-coreanas se destacaram sobre os feitos cinematográficos dos demais países do globo. Munidos de apurado senso estético – o que torna seus planos verdadeiras pinturas vivas – os longas-metragens oriundos da Coréia do Sul são, via de regra, marcados pela inserção naquilo que há de mais bizarro e repulsivo no comportamento humano. Dispensando o viés cool e estilizado ao qual, por exemplo, Quentin Tarantino recorre quando da captação de sequências violentas, diretores como Park Chan-wook e Joon-ho Bong optam pela crueza para melhor retratarem a brutalidade do meio no qual estão situados seus personagens, o que, além de tornar as obras sufocantes, lhes garante a característica de extremamente reflexivas em razão da não banalização do tema.
De maneira diferente, os filmes argentinos conquistam crítica e público graças a elegância com que manejam o melodrama, o que, não raro, permite a nossos vizinhos o mérito pela criação de trabalhos saborosos quanto ao peculiar senso de humor e precisos quanto a análise dos relacionamentos interpessoais. Mas, eis que agora surge um título que – talvez até sem o intuito – realiza a interessante fusão destas duas tendências fílmicas, qual seja o argentino Abutres (Carancho, 2010) de Pablo Trapero.
Dito isso, faz-se mister esmiuçar a história abordada no filme para, assim, melhor assimilar o cerne da análise, por isso, saltemos, então, para a sinopse: enquanto no Brasil a figura do advogado inescrupuloso é conhecida como presença constante nas portas de cadeia, na terra dos hermanos aquele profissional da lei costuma fazer serão em recepções de hospitais para, assim, “socorrer” vítimas de acidentes de trânsito e, ato contínuo, extrair delas as procurações necessárias para litigar contra as companhias de seguro. Num esquema que envolve de paramédicos a policiais, a grande vantagem é obtida quando do recebimento das indenizações, ocasião em que o nobre causídico repassa para seu leigo cliente um percentual setenta ou até oitenta vezes inferior a real quantia paga pela seguradora.
 Isto posto, é em um ambiente violento e hostil que atua o advogado Sosa (Ricardo Darín). Insatisfeito com a vida medíocre que leva, Sosa visualiza a possibilidade de mudança de ares ao ter o coração arrebatado pela paramédica Luján (Martina Gusman), momento esse em que cresce naquele o desejo de consertar as coisas para, consequentemente, começar a agir como um homem de princípios.
Tal como Sosa, Luján exercita sua profissão sem muito ânimo; cansada e precisando urgentemente desfrutar de algumas horas de sono, a mulher alivia a tensão do cotidiano aplicando-se calmantes que lhe submetem a uma inconteste dependência, fator esse que, aliado a estafa física e mental, colabora para que erros médicos passem a fazer parte da rotina laboral de Luján.
Ele e ela, portanto, constituem um par de errantes cujo único desejo é o de ter o mínimo de paz necessário para a reconstrução de suas trajetórias, anseio esse que acaba frustrado em razão, sobretudo, das escolhas equivocadas tomadas por Sosa no passado e que, agora, assombram o pretenso presente do casal.

No elenco, Ricardo Darín novamente demonstra o estupendo ator que é, ao passo que Martina Gusman (esposa do diretor Trapero) se revela como grande e agradabilíssima surpresa face uma atuação contida mas plenamente hábil quanto a demonstração do que significa transitar rente ao próprio limite, daí porque o entrosamento da dupla de protagonistas se mostra quase que palpável, garantindo, por óbvio, uma credibilidade ainda maior a produção.

Considerando todos os fatores elencados, Abutres não deixa de caracterizar o relato argentino de uma história de amor; a diferença nesse caso consiste no caos e na crueldade que imperam em uma narrativa fruto da ótica bruta, crua e, acima de tudo, inquietante do cineasta Pablo Trapero que, em virtude de tais características, logra o êxito de passar ao espectador os mesmos sentimentos de agonia e desespero experimentados pelos personagens.
Como outrora sugerido, Abutres é o filme argentino mais sul-coreano já feito; logo, não obstante suas características particulares, resta provado que os cinemas de países completa ou vagamente diferentes podem tranquilamente dialogar entre si para, a partir dessa experiência, galgar novos saltos de qualidade pela via da mistura de influências que, conforme a lição de Trapero, não precisa afastar o toque peculiar conferido pela nacionalidade. Não é a toa Abutres conseguir, ao mesmo tempo, ser uma obra tocante ainda que feita para ser assistida roendo as unhas. É ver para crer e/ou compreender.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼

Ficha Técnica
Direção: Pablo Trapero
Roteiro: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre e Pablo Trapero
Fotografia: Julián Apezteguia
Direção de Arte e Figurino: Mercedes Alfonsín
Edição: Pablo Trapero e Ezequiel Borovinsky
Estreia no Brasil: 3 de Dezembro de 2010
Duração: 107 minutos
Curiosidades: Além de eleito como o representante da Argentina na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2011, Abutres foi escolhido como o mais novo trabalho não americano a ser refilmado em Hollywood. Neste sentido, Scott Cooper (Coração Louco) está cotado para dirigir a versão norte-americana, cujo roteiro ficará sob a batuta de Aaron Stockard (Atração Perigosa).

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