EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Coração Louco


Jeff Bridges e a Fivela

Bad Blake é um músico cujo sucesso ficou para trás. Um tanto quanto preso às lembranças dos bons tempos, Blake insiste na árdua tarefa de sobreviver através da carreira artística. Para tanto, o cantor e compositor viaja em solitárias turnês nas quais se apresenta ao lado de bandas provisórias para um pequeno público de cinqüentões que ainda vê aquele como ídolo. Frustrado com a rotina de shows em palcos apertados – quando não improvisados – Blake segue perseverante sua trajetória rumo ao fundo poço, contando, neste sentido, com a especial colaboração do alcoolismo e do rancor motivado pela ascensão ao estrelato de um pupilo seu.
Coração Louco (EUA, 2009) faz parte do rol de filmes nos quais a vivificação do personagem principal suplanta, tornando-se até mesmo mais importante, que o conjunto da obra. Isto posto, o belo trabalho de Jeff Bridges desafia pretensas avaliações técnicas por se tratar de uma interpretação na qual o ator literalmente é o personagem. Ainda que elogios dessa natureza tenham se tornado lugar comum quando das análises do longa-metragem, existem sutilezas na atuação de Bridges que merecem o devido destaque, como, por exemplo, o aspecto desleixado do personagem. Sempre de fivela e braguilha abertas, Bad Blake renunciou a vaidade há muito tempo; porém, à medida que a vida lhe proporciona novas oportunidades para levantar a cabeça, aquele cinto surge devidamente apertado, revelando uma vestimenta, por conseguinte, bem mais polida. Neste passo, a mudança de Blake é obviamente exposta a provas, afinal, o mundo, o destino, a vida ou o quer que seja volta e meia pregam rasteiras como forma de avaliar a determinação humana, razão pela qual, mesmo que em determinado instante a tal fivela esteja abotoada, o passado volta a assombrar e a lembrar dos erros de outrora.
Tal qual o metafórico figurino do protagonista, a fotografia, por sua vez, enche de sombras o cenário da casa daquele para, a partir da regeneração do músico, preencher com luzes de esperança o ambiente.
Neste diapasão, se o charme da produção é garantido através das entrelinhas – ressaltando, dentro deste contexto, a cooperação prestada pela ótima trilha sonora – a sensação de vale-a-pena-ver-de-novo, por outro lado, acaba permeando o filme de modo bastante expresso – ainda mais quando se considera comparativamente o recentíssimo O Lutador (The Wrestler,  EUA, 2008) de Darren Aronofsky, cujo roteiro é estruturado em torno de premissa absolutamente idêntica a do filme em comento.
Desta feita, Coração Louco se firma tão somente como uma agradável variação de uma narrativa já muito explorada. Por certo, a obra poderia ser lembrada não só pelo laureado desempenho de Jeff Bridges, hipótese essa em que poderia alcançar um patamar maior de excelência caso seu script não optasse por um caminho tão convencional. De qualquer forma, essa não será a primeira nem a última vez que exemplos dessa espécie serão testemunhados. Correto?

COTAÇÃO: ۞۞۞

 

Ficha Técnica

Título Original: Crazy Heart
Direção: Scott Cooper
Elenco: Jeff Bridges (Bad Blake), Rick Dial (Wesley Barnes) Robert Duvall (Wayne)Tom Bower (Bill Wilson)James Keane (Manager)Richard W. Gallegos (Jesus/Juan) Maggie Gyllenhaal (Jean Craddock) Debrianna Mansini (Ann)Ryan Bingham (Tony)William Sterchi (Pat) Paul Herman (Jack Greene)Brian Gleason (Steven Reynolds)David Manzanares (Nick) J. Michael Oliva (Bear)Jack Nation (Buddy)Ryil Adamson (Ralphie)Beth Grant (Jo Ann), Colin Farrell (Tommy)
Estreia no Brasil: 5 de Março de 2010
Duração: 111 minutos

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