EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 9 de novembro de 2010

A Suprema Felicidade

Superficialidade Nada Felliniana

Não há como escapar da obviedade tão frisada pela crítica pátria: A Suprema Felicidade (Brasil, 2010) é o Amarcord (Itália, 1973) de Arnaldo Jabor. Neste sentido, mesmo reconhecendo a influência da obra de Federico Fellini, o diretor brasileiro tenta, em vão, se esquivar da ingrata comparação; tanto que em recente entrevista de divulgação declarou que o cineasta italiano lhe inspirara de forma determinante apenas no que se referiu à estrutura dramatúrgica da produção, não se aplicando semelhante pensamento à temática daquela ¹.
Consciente do fardo pesado que é ter um trabalho analisado em conformidade com o parâmetro de qualidade firmado por Fellini, Jabor, na verdade, poderia ter evitado tamanha saia justa caso permanecesse afastado do ofício cinematográfico, isso porque enquanto Federico esbanjava lirismo ao situar suas memórias em universos ora oníricos ora reais, Arnaldo, em contrapartida, mostra mão pesada na condução do elenco e da trama, o que, além de conferir ao longa-metragem um ar de novelão – e dos piores – revela, ainda, o quão enferrujado ficara o artista após vinte e quatro anos longe da claquete.
  Neste diapasão, em A Suprema Felicidade tudo soa superficial, forçado; sejam as referências fílmicas – que, não satisfeitas com a insistente emulação a Amarcord, incluem, ainda, em determinada cena de conteúdo homossexual um caricato plágio de Querelle (Rainer Werner Fassbinder, 1982) – sejam as reflexões extraídas das reminiscências familiares de Arnaldo Jabor.
Como se o desastre já não estivesse garantido, a trilha sonora equivocada, somada às constrangedoras dublagens encenadas por membros do elenco contribuem para piorar o quadro, bem como para, em definitivo, rotular de antiquado o atual cinema de Jabor ² - o qual, por certo, imaginara que, tal como nos tempos da pornochanchada, bastaria inserir uma dezena de sequências de nus femininos para que, assim, o filme tivesse seu quê de ousadia definido.  
Desta feita, como nem mesmo o caminho da sensualidade fora capaz de evitar que A Suprema Felicidade fosse a pique, o longa-metragem, por conseguinte, desponta, dentre as produções nacionais³, como favoritíssimo candidato ao título de abacaxi do ano, o que não deixa de ser lastimável, visto que o ar cool conquistado ao longo dos anos por Jabor na função de comentarista político dispensava o abalo gerado pelo péssimo resultado da obra em comento.  

1.     Revista Preview, ed. 14. São Paulo: Sampa, Outubro de 2010. p. 44.
2.     Tal qual afirma O Rappa em uma de suas canções: “O Novo Já Nasce Velho.
3.     Dentre as produções internacionais a aposta, mais do que certeira, é feita para O Último Mestre do Ar de M. Night Shyamalan.

COTAÇÃO - ۞

Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Arnaldo Jabor
Elenco:  Ary Fontoura (Padre)Roney Villela (Navalha)Cláudio Mendes (Alfredinho)Emiliano Queiroz,  Cintia Rosa (Moça Pipoqueiro)Maria Luisa Mendonça (Cafetina)Mariana Lima (Sofia)Elke Maravilha (Avó de Paulo)João Miguel (Bené)Maria Flor (Deise)Dan Stulbach (Marcos)Jayme MatarazzoMarco Nanini (Noel)Tammy Di Calafiori (Marilyn) 
Estreia no Brasil: 29 de Outubro de 2010
Duração: 125 minutos

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