EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 28 de abril de 2011

Biutiful

As Desgraças de Iñárritu

Na sequência final de Gladiador (EUA, 2000) o general Maximus Decimus Meridius consegue alcançar um objetivo maior do que a própria vingança por ele perpetrada: reencontrar, já em outro plano, a mulher e o filho outrora assassinados. Ideia semelhante conduz a narrativa de Biutiful (Espanha, 2010), qual seja o encontro do protagonista Uxbal (Javier Barden) com o pai falecido há décadas. Ambos os filmes, portanto, comungam em suas conclusões de um pensamento confortável a quem já sofreu uma perda: passar pelo inevitável rito de transição com a ajuda de pessoas amadas que não mais estão entre nós. Enquanto Ridley Scott chega a tal término pela via do épico pulsante, a obra de Alejandro González Iñárritu limita o ar poético para as cenas de abertura e de encerramento, preferindo desenvolver-se mediante uma narrativa crua e de composição estética propositalmente decadente. Neste passo, uma vez que a história principal de seu filme assim permitia, Iñárritu perde a oportunidade de trabalhar com mais leveza e poesia para insistir com seu olhar trágico e pessimista sobre o homem. Não que o mundo em que vivemos seja um mar de rosas, porém, a recorrência com que o diretor espanhol explora o prisma da mazela, da desesperança retira de Biutiful a dose de espontaneidade que tão bem lhe cairia, tarimbando o espectador para qualquer excesso que porventura surja.

COTAÇÃO۞۞۞

Ficha Técnica
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Armando Bo e Nicolás Giacobon
Produção: Alejandro González Iñárritu, Jon Kilik e Fernando Bovaira
Música: Gustavo Santaolalla
Fotografia: Rodrigo Prieto
Direção de Arte: Marina Pozanco
Figurino: Bina Daigeler e Paco Delgado
Edição: Stephen Mirrione
Estreia no Brasil: 21 de Janeiro de 2011
Duração: 137 min


3 comentários:

  1. Quero muito conferir, adoro Inarritu e Javier Bardem. Os dois juntos deve ser demais!

    http://cinelupinha.blogspot.com/

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  2. Impecável sua análise sobre este que é de fato o maior problema de BIUTIFUL: a abordagem pesadíssima do tema, sem espaço para sutilezas. Em função disso, toda a parte técnica funciona: seja a fotografia mórbida de Prieto ou a música dissonante de Santaolalla, além da direção de arte que afunda tudo em tristeza e decadência. Mas o cineasta falta com o roteiro, e, agora sem Arriaga, intenciona, mas não consegue trabalhar com histórias paralelas (ainda que Uxbal seja o protagonista evidente). 5/10

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