EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 18 de abril de 2011

Senna

Parábola Verídica

Sem dúvida a grande virtude do documentário Senna (Reino Unido, 2010) consiste no fato de ser dirigido por um cineasta estrangeiro¹. Afastado de qualquer tom ufanista, o britânico Asif Kapadia não só ilustra e discorre sobre o heroísmo do mito como também abre espaço para cenas mostrando que o piloto também sabia quando preciso ser turrão e mal-humorado, humanizando, assim, o retrato realizado.
Dentro deste contexto, se por um lado esse distanciamento da identidade nacional garante maior objetividade ao longa-metragem, por outro lado demonstra a carência do diretor quanto ao conhecimento de campo necessário para o aprofundamento da relação entre as mazelas e agruras sofridas pelo povo brasileiro e o alento e felicidade com que Senna o presenteava mediante cada vitória e cada bandeira pátria orgulhosamente empunhada – pecado esse que, apesar de presente, há de ser considerado insignificante eis que o assunto acaba sintetizado com eficiência através da declaração de uma mulher que, durante o cortejo do corpo do atleta, afirma que o tri-campeão mundial era a única coisa boa que os brasileiros dispunham até então.
A versão estendida do documentário, disponível nas cópias em blue-ray, acresce em cerca de uma hora a duração original da produção por conta da inserção de diversas entrevistas². Neste sentido, é dada voz a Alain Prost para que este faça comentários sobre a atroz rivalidade travada com Senna, aspecto esse no qual chama atenção a maturidade de dois homens que por um tempo não se toleraram, mas que, em seguida, souberam reconhecer o talento e o valor um do outro.
A saga de Ayrton Senna da Silva por muitas vezes se confundiu com a parábola de Davi contra Golias, dadas as diversas arbitrariedades das quais foi vítima em benefício do favoritismo do presidente da FIA, o francês Jean-Marie Balestre, pelo conterrâneo Prost, o que não raro faz com que o filme se assemelhe a uma obra de ficção. É uma pena, porém, que as lágrimas debulhadas durante a exibição por aqueles que em tantas manhãs de domingo se emocionaram com o brasileiro sejam fruto de uma história real e deveras cruel.
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1. “Ao ser contratado, o diretor Asif Kapadia pouco sabia sobre a vida de Ayrton Senna e a Fórmula 1. Era esta a intenção dos produtores, para que ele tivesse um olhar imparcial sobre o material do filme” FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/senna/noticias-e-curiosidades/.
2. Num universo de extensos depoimentos colhidos de jornalistas esportivos e demais profissionais da Fórmula Um, é de se estranhar a ausência de Galvão Bueno, afinal, por anos este manteve forte laço de amizade com Ayrton Senna.

COTAÇÃO: ۞۞۞۞

 

Ficha Técnica

Direção: Asif Kapadia
Roteiro: Manish Pandey
Música: Antonio Pinto
Edição: Chris King e Gregers Sall
Estreia no Brasil: 12 de Novembro de 2010

2 comentários:

  1. Nada menos que emocionante. Chorei!

    http://cinelupinha.blogspot.com/

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  2. Um filme que retrata bem o que o nome Senna representou e ainda representa para toda uma nação de apaixonados e que aprenderam a gostar ainda mais depois que ele esteve presente nas pistas.

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