EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 22 de abril de 2011

Chuvas de Verão

Mosaico Quebradiço

Críticas interessantes são aquelas que mesmo dispensando menção a sinopse aguçam a curiosidade do público para com a obra comentada. Há hipóteses, porém, em que o resumo da narrativa se revela indissociável da análise graças a peculiaridades da trama que clamam por avaliações.  
Por isso, cabe dizer que Chuvas de Verão (Brasil, 1977) gira em torno dos quatro primeiros dias de aposentadoria vividos pelo personagem principal ao lado de vizinhos, amigos e parentes cujos desânimos e privações caminham paralelamente as incertezas daquele primeiro. Cumprida, portanto, essa fase introdutória do texto, passemos, então, ao cerne da discussão:
Há diretores, como Pedro Almodóvar, que conseguem trabalhar com um emaranhado de personagens e trajetórias sem prejudicar a coesão e a própria validez do longa-metragem. Nesse caso o risco da empreitada, por óbvio, é sempre maior dada a possibilidade de:
·         assuntos virem a ser mal aproveitados;
·         a edição não lograr êxito em dar para cada tópico o tempo necessário ou merecido.
Dentro deste contexto, Chuvas de Verão funciona como exemplo de uma malfadada tentativa nesse sentido. Mediante um roteiro que aborda temas variados como: terceira idade, solidão, violência, desigualdade social, homossexualismo e moralidade, Cacá Diegues atira para todos os lados sem acertar nenhum alvo específico, de forma que sua intenção de realizar um retrato comportamental sobre parcela da sociedade, acaba resvalando na pretensão.
Como outrora sugerido, reunir com sucesso muitos plots em torno de um só eixo não é tarefa impossível, desde que reste garantido a cada ramificação o respectivo e devido desenvolvimento, aspecto esse que, no caso do filme de Diegues, se mostra comprometido graças a enfoques rasos e superficiais acompanhados de conclusões ora abruptas ora dispensáveis.
Em razão da presença de tantas histórias e tantos personagens duas hipóteses, por certo, se adequariam com mais eficiência a produção, quais sejam o desmembramento do roteiro para utilização de suas idéias ao longo de três ou quatro curtas-metragens ou o descarte de, pelo menos, duas ou três sub-tramas para assim viabilizar a profundidade requerida pelos dramas encenados; afinal, a mera sugestão, convenhamos, não é o bastante para uma obra que propõe a tantas discussões. Ao tentar abraçar o mundo com as pernas, Cacá Diegues despe seu projeto de qualquer espontaneidade e o insere no rol daqueles que se afogam nas próprias boas intenções.¹
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¹. Nesta toada, Carandiru (Brasil, Hector Babenco, 2003) é outro exemplo de obra nacional que padece do mesmo vício.

COTAÇÃO: ۞۞

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Cacá Diegues
Duração: 96 minutos

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